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terça-feira, 24 de junho de 2014

Eclipse do Caos (InDev)

Notas do autor

 Alguns avisos antes de ler: Se possível divulgue o projeto "InCômodos", temos um canal no Youtube, Eclipse do Caos é uma estória de minha autoria (Narques não é meu nome de verdade, adoro pseudônimos), sempre aceitarei críticas sobre a estória e sua continuidade, entretanto, peço que apontem todas as falhas de português que virem. Como sou novíssimo no ramo da escrita, posso acabar tendo dificuldades. Inicialmente esta estória tinha o objetivo de ser em quadrinhos, porém, eu não sei desenhar. Quaisquer perguntas que tenham sobre o projeto, podem ser feitas através dos comentários que serão respondidas o quanto antes.
 Caso queira publicar algo aqui, basta avisar pelos comentários também.
 Enfim, é basicamente isso, espero realmente que aproveitem o que estão prestes a ler.
 InDev (In Development) = Significa que está em desenvolvimento, a estória não está concluída, e meu objetivo é que ela seja absurdamente longa. 

Prólogo - Despertar

 Seus olhos eram castanhos claros, seu cabelo era curto e um pouco desgrenhado, a coloração era um degradê castanho claro quase imperceptível nas pontas que escurecia no topo, feições não tão finas, aparentava ser uma criança, com roupas rasgadas e uma expressão de dor e angústia, uma camisa azul e uma bermuda preta ensanguentadas e com queimaduras, seu corpo um pouco bronzeado formigava da cabeça até seus pés descalços, tudo o que se podia ver era escuridão que aparentava não ter fim, enquanto seus olhos se adaptavam entrando no estado de visão noturna e vendo as paredes rochosas e estalactites no teto, ele começava a relembrar do que ocorreu, sua vila em chamas, seus parentes mortos e todas as alegrias que foram levadas embora por monstros das sombras durante um eclipse solar. Virou o rosto e pouco antes de desmaiar novamente, viu uma lâmina negra saindo do seu braço direito. Ao acordar de novo, tinha acabado de sonhar com alguém lhe dando explicações sobre magia, parecia já tê-la visto antes. Ao acordar ele planeja o que fazer e vê que a lâmina não estava mais lá, ela tinha desaparecido do seu braço, tudo que restava era uma cicatriz. Forçou um pouco o antebraço e ela começou a aparecer junto com uma dor imensa. Ele sai da caverna tentando retomar sua consciência por completo e vê o nível de destruição da vila onde ele vivia, quase entrou em colapso, porém, preferiu apenas aceitar o ocorrido e se vingar, já que gritar e espernear não iria trazer nada de volta.
 Seguiu viagem até encontrar uma vila com alguns camponeses que o ajudaram a se restabelecer, enfaixando seus ferimentos e o dando roupas quase iguais, exceto pelas botas novas que cobriram seus pés descalços. Desde o dia que sua vila foi atacada, sua vida nunca mais foi a mesma, o garoto em sua convivência com os monstros começou a mudar sua personalidade e aprendeu a se virar melhor. 

Capítulo 1 - Obstinação


 Logo ao amanhecer partiu em busca de informações com os camponeses daquela nova vila e descobriu que além de suas aparições terem um padrão, esses monstros só atacavam na escuridão e matavam os guardas das cidades sorrateiramente, assim quebrando as defesas para que pudessem destruir a cidade por completo, levando-o a crer que eles eram seres racionais, as únicas vilas sobreviventes estavam em condições péssimas.
 Ele estava na vila de Namping e iria para o porto, que é o local mais fortificado do continente de Cylan. O garoto viajou durante um grande período, investigando cada ruína das cidades destruídas que encontrava, até que um dia ele encontrou um encapuzado com um falcão azul no ombro, ele parecia desajeitado com magia enquanto usava um tipo de fogo mágico para esquentar um coelho morto.
 A primeira vista o encapuzado atacou o garoto com uma bola de fogo, o garoto desvia e sem mostrar sua lâmina ele se aproxima em uma velocidade incrível e imobiliza o alvo, revelando sua face pôde descobrir que o encapuzado é, na realidade, uma garota. 
 Com cabelos longos e loiros um pouco ondulados próximo as pontas e um laço que o prendia no topo da cabeça, seus olhos eram verdes e seu corpo não tinha nada muito chamativo, apenas o seu rosto que não deixava a desejar, com suas feições finas e lábios hipnotizantes e com isso ela tinha um ar um pouco mais maduro que o rapaz que a segurava pelos ombros.
 Ela deixa sua varinha cair e seu familiar desaparece, sem chances de se defender ela se rende ao garoto, que começa a interrogá-la enquanto ela desvia o olhar e responde com medo as perguntas dele.
 O garoto descobre que ela se chama Cecília e é uma aspirante à feiticeira, cheia de sonhos e planos para o futuro, até o caos chegar na vila onde vivia e ela se encontrar em uma situação semelhante à do garoto, porém, o que os difere é o fato dela ter um familiar mágico com forma de Falcão azul que a salvou do caos, ajudando-a a sobreviver. Ela não parece ter muita habilidade com magia. 
 Após o longo interrogatório, o garoto começa a perceber que Cecília não era uma ameaça, mas sim apenas uma garota em busca de justiça devido as atrocidades cometidas por aquelas aberrações. Decide então libertá-la e pedir para que ela o acompanhasse, já que ele não tinha mais ninguém com quem contar naquele lugar. 
 Quando de repente, Cecília se mostra não somente ágil e inconsequente, mas também corajosa por desafiá-lo a um duelo, após recuperar sua varinha. Os dois se preparam para o duelo. Cecília prepara sua varinha e o garoto faz surgir a lâmina de seu braço, a garota se toma pelo medo e o chama de monstro por ter um tipo de espada saindo de seu braço, os dois começam a batalha, ele alveja o rosto de Cecília e tenta socá-la, mas ela ligeiramente usa uma barreira mágica, logo após ele tocar a barreira mágica com seu punho esquerdo, diz algumas palavras e a barreira some e Cecília se encontra paralisada sem entender muito bem o que houve e acaba se rendendo. Após terminar o duelo Cecília um pouco envergonhada por sua derrota resolve pedir desculpas por atacá-lo e chamá-lo de monstro e diz.
—É falta de educação bater em uma garota, seus pais nunca te ensinaram?
—Mas foi você que me atacou.
—Nossa, como você reclama... O que é isso saindo do seu braço?
—Não sei muito bem. Isso apareceu depois do eclipse, eu acordei com isso no meu braço.
—Não dói? - Disse tentando imaginar como deve ser ter uma lâmina saindo do braço.
—Só na hora de fazê-la aparecer e retornar.
—Hm... Não é de nenhum material que eu conheça. Mas vamos chamá-la de Lâmina do Eclipse, já que é uma lâmina e ela apareceu durante o eclipse, tem lógica, não é?
 Ela fecha um livro velho com uma expressão calma e alguns resquícios de felicidade podem ser notados.
—Ah, por mim tanto faz.
—Ainda não sei seu nome...
—Meu nome é... Qual era meu nome mesmo?! - Falou enquanto coçava a cabeça tentando lembrar.
—É... Você não se lembra do seu nome? - Enquanto ria com cara de deboche
—Na verdade acho que nunca tive um.
—Hm, muito estranho... Vou te chamar de... Pera aí. Como assim seu pai nunca te deu um nome? - Indagou enquanto demonstrava espanto.
—Eu acho que ele não sabia meu nome, ele só me chamava de filho...
 Ela começa a rolar de rir no chão e quase chorando levanta-se segurando o riso.
—Acho que vou aceitar seu convite. - Diz ela se acalmando um pouco
—Tanto faz. - Diz ele tentando entender o que acabara de ocorrer
—Seja agradecido por eu te dar um nome, eu vou te chamar de... Garoto!
—Garoto?! Isso nem é nome!
—Além de reclamão ainda é mal-agradecido, GA-RO-TO? - Diz ironicamente
—Tá, tá, por enquanto tudo bem...
 Então "Garoto" e Cecília acamparam por ali pois já estava anoitecendo. 

Capítulo 2 - Agitação


 Em torno das 3 da manhã os dois acordam com um estampido alto, ao saírem da barraca improvisada dentre as árvores, avistaram ao horizonte a Vila de Namping em chamas, correram em direção a vila para tentar ajudar alguns dos camponeses que ali viviam, mas não eram monstros que tinham causado o incêndio e sim um grupo de saqueadores.
 Enquanto Cecília tentava conter o fogo com sua magia o "Garoto" perguntou ao primeiro camponês que encontrou "Quem são eles?" e o camponês com pressa respondeu "São os bandanas douradas, apenas fuja!".
—Pela claridade os monstros provavelmente não apareceriam, são saqueadores, Cecília, acho que não há mais salvação aqui. - Disse ele intrigado
 A Vila de Namping acabou submersa em um grande caos, sendo queimada por inteiro, só restaram cinzas e alguns saqueadores procurando itens de valor nos destroços.
 Dois meses se passaram desde o dia que ficou lembrado como "Eclipse do Caos", oito dias desde que se conheceram e uma semana desde que a vila de Namping foi destruída e agora Cecília e "Garoto" se encontram observando os bandanas douradas no que aparentava ser o esconderijo deles, frente a uma fortaleza dentre árvores e ruínas, eles mantiveram-se na espreita por alguns dias, apenas observando os hábitos desse grupo de marginais e acabam descobrindo que o líder dos bandanas douradas pode saber algo sobre o eclipse. "Garoto" sorri pra Cecília com seus olhos brilhando.
—É hora da vingança, podemos descobrir quem ou o que comandou o Eclipse do Caos.
—Não tenha muita esperança, são apenas marginais que saqueiam vilas...
—Mas a esperança é a última que morre, eles podem saber algo.
—Ou não saber nada... - Diz ela em um tom desanimador que não abala a determinação do garoto
—Não custa tentar, me empreste o falcãozinho que estava no seu ombro!
—Falcãozinho?! Não faça nada de errado com o Hawk, seu idiota!
—Hawk?! Que clichê. "Hawk, o Falcão" tão clássico. - Diz enquanto ri para provocá-la
—Você quer a ajuda do Hawk ou você não quer a ajuda do Hawk, Ga-ro-to? - Exclamou pausadamente e cerrando os punhos
—Sim, eu quero a ajuda do seu passarinho, desculpe o incômodo, Senhorita Cecília. - Disse ele num tom de deboche abaixando a cabeça
—Mas agora eu não empresto.
 "Garoto" fica com uma expressão de desdém. Ele se prepara para o ataque, liberando sua lâmina e algumas gotas de sangue caem, Cecília se prepara para dar todo o suporte necessário a ele, o "Garoto" mata os dois guardas da porta sem muita dificuldade, eles pareciam destreinados.
—Acho que está fácil demais. - Ele limpa o sangue na lâmina
—Não se sente mal matando humanos? - Ela o encarava com os olhos arregalados
—Estão apenas tendo o que merecem, são assassinos. - Ele mantém uma expressão séria
—Ah, então tá, né.
 Cecília usa sua magia para abrir a porta, ambos invadem a fortaleza de pedra e percebem que a defesa é relativamente fraca, ele guarda a lâmina, enquanto o buraco no seu braço se fecha, eles andam um pouco e o  "Garoto" acaba caindo em um buraco com espinhos no fundo, antes de ser perfurado ele é salvo por Hawk e um tambor começa a soar ao fundo. 
—É, acho que deu mer- Antes que terminasse a frase ele é levantado pela camisa por um dos guardas que apareceram.
 Eles estão cercados por um grupo de Bandanas Douradas e são engaiolados e levados até o provável líder da facção, Notarius, era uma espécie de híbrido de minotauro com pato, havia um grande bico amarelo em seu rosto, chifres de boi na sua cabeça e seu corpo era coberto de pelos.
 Chegando em uma sala grande e um pouco vazia, exceto por diversas estatuetas sem sentido e abstratas, um dos guardas faz uma reverência ao Notarius.
—Chefinho, o que fazemos com eles?
—Deixe me dar uma olhada, Quack! - Ele saca um machado de guerra exageradamente grande e os ataca com um golpe centralizado atravessando a jaula, Cecília cria uma barreira no susto, que foi facilmente destruída e o "Garoto" agarra Cecília e desvia do ataque.
—Suas barreiras já funcionaram alguma vez? - Diz ele sem olhar pra ela
—Ela é uma maga, Quack, não é? - Diz Notarius batendo a parte de baixo do machado no chão e bufando
—Tire os olhos dela, pato-vaca maldito, é minha maga. - Respondeu sem pensar muito
 Cecília fica vermelha e esconde o rosto, mas eles já recebem outro ataque, ele rapidamente expõe a lâmina e a usa para desviar o ataque e Hawk é atingido, Cecília faz Hawk sumir e entra em desespero.  Enquanto isso eles notam que Notarius está em desespero.
—N-não pode ser, você é o novo Quack portador da Lâmina do Eclipse? - Disse enquanto  recuava impressionado
—Ah, sério? - Enquanto começa a ter um tom sarcástico e sua voz sofre uma alteração, ficando mais desafinada e sombria e seus olhos se tornam completamente negros
—Sim, mas não pense que vai me intimidar, você é só um Quack menino.
—Você sente o medo? - O ódio toma conta dele
—Ha-ha... Quack Ha... Mas que m**** é essa?! - Diz Notarius enquanto recuava
De repente a lâmina começa a piscar em um tom monocromático e o herói começa a exalar um tipo de miasma, enquanto Cecília observa a cena com temor e não podia ver seus olhos. O "Garoto" começa a rir freneticamente de costas pra Cecília, do miasma se forma um olho na lâmina, enquanto o garoto aproxima-se lentamente de Notarius sua lâmina aumentou de tamanho e começou a arrastar no chão.
 Notarius tenta o acertar com o machado mas o desespero o faz errar, de repente o machado de Notarius começa a rachar lentamente e é coberto pelo miasma, Notarius manda seus servos atacarem, mas todos começam a queimar em chamas negras ao chegarem perto da sombra que estava em torno do "Garoto" e acabam sendo derretidos, os restos mortais de todos se fundem à sombra e formam uma substância líquida que forma um esqueleto negro gigante.
 Enquanto Notarius recua, o esqueleto negro cria uma foice do miasma remanescente e corta Notarius quatro vezes seguidas em sentidos diferentes, Notarius depois de gritar de dor, dá uma leve risada enquanto as partes de seu corpo mutilado caem lentamente.
—Ao menos o continente de Cylan foi Quack destruído por completo.
 O esqueleto vira pro Garoto, curva-se demonstrando respeito e some em chamas negras, deixando apenas uma nuvem de miasma que é sugada pela lâmina que fecha o "olho" e entra em seu braço. A visão dele esmaece e ele cai no chão inconsciente, Cecília corre para tirá-lo dali, enquanto todas as tochas se apagam e os monstros invadem o local pelas janela da sala e começam a devorar os restos mortais de Notarius em uma carnificina grotesca, Cecília diz "Retornar!" e logo eles são teletransportados de volta ao acampamento improvisado, porém, ele se mantém desacordado.
 Cecília começa a chorar de medo com o que aconteceu e acaba por dormir ali mesmo com lágrimas nos olhos. Na manhã seguinte ele e Cecília acordam quase que simultaneamente e Cecília se afasta do Garoto com medo.
—O que houve? Por que está agindo assim? Pare de ser estranha, mulher!
—É realmente você? - Cecília o olha nos olhos.
—Claro que sim. Quem mais seria? - Disse sem entender muito bem o que se passava
—Você não se lembra de nada do que aconteceu ontem?
—De quase nada, aliás, o que aconteceu com aquela vaca-pato?
—Você matou aquela coisa...
 Ele parece realmente impressionado com o que acaba de ouvir, ele pede a Cecília para explicá-lo o que houve, ela aparentava estar preocupada com a sanidade dele e começa a explicar detalhadamente. Logo mais quando ambos estavam mais calmos e pareciam estar pensando melhor eles decidem ir para o porto, para navegarem até o continente da magia, conhecido como Vemantis em busca de um objetivo, já que o continente de Cylan havia sido completamente destruído.
—Como está o seu falcão?
Ela apenas o invoca sem dizer nada.
—Hawk parece estar bem. Obrigado por me salvar, falcão. - Comenta ele enquanto Cecília apenas confirma balançando a cabeça, eles rumam ao porto.

Capítulo 3 - Companhia


 A viagem se seguiu sem muitos problemas, atravessando meio continente houveram muitas batalhas contra os seres da escuridão que foram derrotados sem muito esforço, a magia de Cecília evoluiu bastante e ela encontrou novas roupas, ela agora usa uma regata listrada branca e verde escuro, um shorts azul claro com rendas e um chapéu de bruxa azul escuro decorado com o laço que ela usava para prender o cabelo que ela alega "Fazer sua imagem como feiticeira".
 "Garoto" parece não se lembrar dos ocorridos detalhadamente, agora é hora de contar um pouco sobre os momentos prósperos que ocorreram durante a viagem.
 Em meio ao caos que eles acabaram por se acostumar avistaram uma casa no meio de um campo verde que parecia intocado, lá parecia residir um garoto que aparentava ser pacífico e ter a mesma idade que eles.
 Com a parte do rosto que podia ser vista, aparentava maturidade e tinha feições finas e um sorriso largo, seu cabelo preto um pouco longo para um menino, cobria os olhos e parte do nariz e sua pele era um pouco mais escura que a de Cecília, vivendo sozinho o rapaz parecia ter se virado bem contra os monstros. O "Garoto" e Cecília, após tirarem tantas conclusões, foram até ele pra tirar a prova real de que estavam certos. O menino parecia bem calmo em relação ao que se passava ao seu redor, os recebeu educadamente oferecendo-lhes chá e os chamando de idiotas algumas vezes.
—Como pode estar tão calmo? Você viu a situação lá fora? Tá calmo pra caramba... Você enxerga? - Diz "Garoto" indignado e Cecília o encara até acalmá-lo.
—Haha, tá falando daqueles monstros idiotas que aparecem de noite? Eles são meu único passatempo por aqui. E sim, eu enxergo, idiota!
—Passatempo? Como assim? - Diz Cecília com expressão de espanto enquanto cospe o chá na parede - Este chá está com gosto de água suja.
—Eu os observo durante a noite, eles não atacam onde está claro. - Diz ele em um tom sério - Você sujou a parede...
—Você parece saber o que está ocorrendo, você vive sozinho aqui? - Cecília pergunta direcionando um olhar interessado ao menino e ignorando a parede.
—Na verdade eu sempre vivi por aqui, meu tio morava comigo mas ele viajou para o continente de Vemantis a trabalho, logo após o incidente. - Diz ele suspirando e indo limpar a parede com um pano
—Com "incidente" você se refere ao eclipse? - O "Garoto" pergunta enquanto joga o chá fora por debaixo da mesa
—Não, o eclipse não chegar nem sequer aos pés do incidente. Vocês podem parar de espalhar o chá pela casa?
—Pode me dizer o que foi o incidente?
—Não gosto de falar sobre isso. - Diz ele um pouco desanimado
—Voltando a falar do seu tio. Ele te deixou sozinho aqui? O que ele foi fazer em Vemantis? - Cecília pergunta tentando mudar de assunto
—Vocês fazem muitas perguntas idiotas, não? Ele dá aulas de magia em Vemantis, naquela escola popular com o nome engraçado.
—Desculpe por interrogá-lo, é que achamos raro alguém vivendo por aqui.
—Não, está tudo bem... Vocês foram os únicos que vieram pra conversar comigo, ao invés de tentar me roubar desde o dia do eclipse, o que pretendem a partir de agora?
—Nós queremos chegar ao porto e ir para Vemantis, não há mais salvação nesse continente.
—Eu posso os levar lá, não faço nada por aqui, mas com uma condição...
—Você acha que está em posição de pedir algo em troca? Contanto que esteja ao meu alcance eu realizo, já que sou uma ótima pessoa. - Disse o "Garoto" com um ar de superioridade
—Deixe-me ir com vocês, idiotas! - Diz o menino enquanto dá um leve sorriso.
Cecília e "Garoto" se olham e ignoram o insulto.
—Prove-me que você não é apenas um inútil que está com medo...
—Vocês realmente acham que eu sobrevivi aqui por tanto tempo apenas me escondendo na luz que eles não podem alcançar?
Ambos ficam em silêncio.
—Vá fazer as malas! - Diz Cecília aparentando estar um pouco surpresa com a resposta
—Ah, me chamo Jean...
—Meu nome é Cecília.
—Me chamo... "Garoto". - Diz ele um pouco incomodado.
—Vou te chamar de Riki... Riki é um nome legal e menos idiota. - Falou tentando conter o riso.
—Andem logo! Não temos o dia inteiro. - Disse Cecília tentando imitar uma idosa
—Melhor do que garoto. - Sussurrou para si mesmo enquanto olha pela janela, mas Cecília percebe e ri.
Quando os três chegaram nas proximidades do porto, encontraram um vilarejo super povoado, em que todos pareciam se preparar para uma viagem. Sim, eles estavam indo para o continente de Vemantis, todos os sobreviventes do eclipse almejam tentar se restabelecer por lá, depois que Cylan ficou conhecida como "O continente devastado".
 Eles dirigiram-se ao porto sem falar muito, ao chegarem no porto conseguem observar que haviam poucos navios e a maioria da frota que restava já estava ocupada por mercadores marítimos e a alta sociedade que ali ainda estava residindo.
 Um grupo de senhores bem trajados em uma embarcação pequena acenaram para Cecília enquanto tragavam charutos sem muita preocupação.
—Você os conhece, Cecília? - Diz Riki com uma expressão de interesse
—São conhecidos do meu pai.
—Você é uma nobre? - Pergunta Jean em um tom calmo
—Claro que ela não é uma nobre, ela já teria me contado a muito tempo...
—Não, eles são apenas comerciantes marítimos, eles tem poder nessa região. - Disse olhando pro Riki com uma cara de decepção.
 Jean sussurrou disfarçadamente para Riki em um tom sarcástico: "Bobão!". Riki apenas olha pra ambos e dá uma leve risada convencida.
—Você por acaso quer ir nadando, Jeanta?
 Jean fica quieto tentando disfarçar o nervosismo.

Capítulo 4 - Vemantis


 Cecília vai falar com os conhecidos de seu pai e consegue vagas em um navio de pesca, sem relutar, eles se sentem obrigados a aceitar e acabam embarcando em um navio em condições precárias com um velho bêbado de cabelo grisalho, roupas brancas de marinheiro, óculos escuros e um chapéu de pirata, ele é considerado o capitão daquela coisa que talvez seja um barco. 
 Após 3 horas de viagem, eles já conseguem ver o porto de Vemantis e acabam ouvindo um grande tremor vindo do fundo do mar. De repente o velho diz: "Já estamos quase chegando." E de repente, com quase o tamanho do barco, surge um tipo de lobo marítimo de  barbatanas sobressalentes nas laterais do torso e pelagem acinzentada que estava um pouco mais escura devido a água e usa suas garras para subir na embarcação, Riki expõe sua lâmina sorrateiramente e todos os outros que estavam no barco encaravam o "monstro", o velho solta o leme e vai acalmar os tripulantes. Riki recolhe a lâmina ao perceber a situação, enquanto olha pra Cecília e Jean impressionados com o “monstro”.
 De repente o mesmo começa a tomar sua forma humana, aparentava ser um garoto um pouco mais velho que eles, com cabelos brancos, lisos e médios, olhos laranjas amarelados e uma expressão de indiferença em seu rosto pálido, usava chinelos pretos, uma camisa branca larga e uma calça azul que estavam molhadas como seu cabelo, o capitão da embarcação o apresenta a todos como "Lobo do Mar" enquanto sorri. O garoto olha para os três sem esboçar expressão alguma, boceja, coça a nuca e senta em um canto e a viagem prossegue com algumas mulheres sussurrando ao canto e o Jean que assobiava uma música ao fundo. Ao atracarem no porto de Vemantis o "Lobo do Mar" se levanta e vai até eles e começa a encará-los com uma expressão séria. Cecília não se contém e grita com ele: "O QUE VOCÊ QUER?" Jean fica ansioso pela resposta. O "Lobo do Mar" diz apenas: "Bem-vindos a Vemantis." em um tom absurdamente calmo, se vira e sai andando com uma expressão de indiferença como se nada tivesse acontecido.
 Jean o chama e diz: "O que você é afinal?" e é friamente ignorado. Os três desembarcam e vão buscar um lugar para passar a noite, encontram uma pensão perto do porto e 
se hospedam nela.
 No meio da noite, enquanto todos dormiam, Riki ouve vozes aleatórias o chamando, variava entre tons masculinos e femininos, de crianças a adultos, ele sai para uma caminhada noturna pois achou que estava drogado, ele se senta no píer enquanto vê os navios ao horizonte e a água turva, o mar começa a refletir a luz da lua e ele vê um vulto passando na água.
 Enquanto Riki sonhava acordado, alguém encharcado se aproximava devagar enquanto pingava água do mar e andava com um peixe na boca, esse alguém senta-se ao lado de Riki sem esboçar expressão alguma.
 Riki logo percebe a presença dele e pergunta o que ele fazia ali e descobre que era o intitulado "Lobo do Mar" fazendo a patrulha noturna da costa.
—O que está fazendo aqui à essa hora? Você é algum tipo de pervertido que gosta de peixes?  Riki começa a rir e diz que achava que ele fosse uma pessoa séria, porém, sua risada é interrompida por um jato d'água de uma arminha de plástico do Lobo.
—O QUE ESTÁ FAZENDO? - Gritou enquanto secava o rosto.
—Fale baixo, senhor tarado por peixes!
—Não me dê nomes estranhos, idiota!
—Assim que parar de ter seus delírios eróticos com carpas e tentáculos me avise, quero fazer uma pergunta, n-na verdade, duas perguntas...
—E quais seriam elas?
—Primeira pergunta... Você por acaso é gay? - Perguntou em um tom sério
—CLARO QUE NÃO! O que o fez pensar isso?
—Hm... Indeciso... - Dizia ele enquanto desenhava algo em um bloquinho com uma expressão de indiferença.
—Hey, o que você está anotando aí? Esse sou eu? Por que estou beijando um golfinho? Ah, tanto faz... Faça logo a outra pergunta... PARE DE DESENHAR! - Parou pra respirar.
—Tá bom, tá bom... O que era aquela coisa longa e pontuda saindo do seu braço enquanto estávamos no barco?
—NÃO FALE DE FORMA QUE AS PESSOAS POSSAM ENTENDER ERRADO, SEU IDIOTA! Mas... Você viu? - Disse um pouco surpreso.
—Oh, parece que o senhor tarado por peixes se importa com a opinião alheia. - Disse enquanto esboçava uma cara de surpresa - Caso meus olhos não tenham me enganado, é verdade que eu provavelmente vi.
—Você pode evitar comentar isso pela cidade?
—Do seu fetiche por peixes?
—Não, idiota... - Disse enquanto olhava para os lados.
—E o que eu ganho com isso?
—Sei lá, o que você tem em mente?
—Eu quero a sua alma!
—Haha... Pera aí, como assim você quer minha alma? - Disse enquanto mudava o tom cômico ficando um pouco impressionado.
—Você realmente não consegue reconhecer um dos demônios que comandam o mundo?
—Mas, como assim? Você é um demônio? Tipo aqueles dos livros?
—Não é como se eu fosse um demônio super poderoso ou algo parecido, idiota... Você aceita o desafio?
—Quais são as condições para meu segredo ser mantido?
—Eu quero que você mate alguém para mim.
—Você é um demônio, faça você mesmo!
—Como se eu pudesse, meus poderes não estão despertados, tenho meus motivos pra isso não ter ocorrido...
—Então, quem você quer tanto que eu mate?
—O meu irmão que comanda o continente de onde você veio, que provavelmente é o responsável pela criação desses monstros irritantes.
—EU VOU TER QUE VOLTAR LÁ?! - Exclamou com os olhos arregalados
—Não se preocupe com isso, senti a presença dele por aqui esses dias, acho que é senso comum de que ele não permaneceria em um continente ridiculamente devastado.
—Hm, e depois que eu matá-lo?
—Eu tomarei seu corpo, se você tiver força o suficiente, irei fazer um pacto de ligação de almas com você e assim, terás direito a um desejo não erótico e nem absurdo. Afinal, todos os humanos anseiam por ter o poder de um demônio neste mundo.
—Eu não sou diferente... E como seria ele?
—Ah, ele é bem fácil de se reconhecer... Pensando bem, não vou dizer quem é, iria facilitar demais pra você. E não parece que ele esteja planejando algo por enquanto.
—Então por enquanto eu sou desnecessário? - Indaga Riki com uma expressão de desentendimento
—Sim, seu inútil! - Disse Lobo em um tom sério com um sorriso no rosto - Mas alguma hora você vai descobrir quem ele é, nós demônios tendemos a ser muito chamativos quando estamos distraídos.
—Então você está sempre concentrado?
—Na verdade eu sou um caso especial, só me transformo quando eu quero. Mas já chega, tenho que voltar à patrulha. Você tem ideia do que fazer agora que fugiu de Cylan?
—Procurar esse aí que você disse...
—Só isso?
—Ér... - Sem ter o que dizer, Riki coçava a nuca lentamente. - Sei lá, eu não sou de planejar muito, acabei de chegar.
—Vá para a escola de magia no centro de Vemantis e aperfeiçoe suas habilidades, você tem potencial. - Sugeriu entendendo a situação.
—Por que você está me ajudando?
O Lobo se aproxima do ouvido de Riki e diz “Porque eu quero!”. E segue sua patrulha pulando do píer na água e voltando para sua forma real já submerso e sem ser visto. Riki fica confuso e retorna para a pensão, se depara com Cecília e Jean dormindo jogados no chão e se aconchega entre os dois.

Capítulo 5 - Advento


 No dia seguinte são acordados por um forte cheiro de comida, Riki é o primeiro a se levantar e correr até a cozinha, por não comer a dias, ainda com sono e com a visão ainda embaçada ele ouve: “Bom dia, flor.” E sua visão começa a voltar ao normal, ele vê o Lobo cozinhando com um gorrinho azul e a mesma cara de indiferença de sempre.
—Como você entrou aqui? - Pergunta Riki esfregando os olhos
—Eu sou um demônio, panaca!
—Ah, é... - Disse mudando para uma expressão de preocupação - Mas o que você tá fazendo aqui? Você não devia estar patrulhando ou algo parecido?
—Eles só aparecem à noite, né? Pare de reclamar, você parece minha vó.
—Demônios tem avó?! - Disse com cara de espanto
—No geral temos uma ligação meio que espiritual, mas tratamos como laços familiares. - Sua fala é interrompida pelo som da porta do quarto abrindo - Olha quem chegou...
—Essa hora da manhã e vocês já estão no clima? - Disse Cecília enquanto coçava os olhos e bocejava - VOCÊ de cabelo branco, responda a pergunta de onte- É interrompida enquanto apontava pra ele com um expressão de raiva - ISSO É COMIDA?! - Gritou ela encarando a panela e babando -  Riki começa a rir e retorna a pergunta em um tom sério.
—O que você está fazendo aqui?
—Acho que você vai precisar de uma ajuda na questão financeira, vou cozinhar pra vocês. Fica difícil serem escrav- Lutarem com fome, certo? Vocês tem ao menos o suficiente pra pagar a estadia daqui?
 Riki coça a cabeça e olha pra Cecília e ela levanta o polegar afirmando .
—Então, pensou a respeito da escola de magia?
—Escola de magia? Lá é bem caro e difícil de entrar de formas lícitas. - Disse esfregando as mãos e fazendo uma expressão malvada.
—Ah, sim... Esqueci de comentar com ela.
—Ah, a gente consegue uma bolsa de estudos, meu tio trabalha lá, esqueceram? Acho que ele não me odeia. - Disse pouco antes de bocejar
—Acho que estou dependendo demais de vocês. - Diz Riki ficando envergonhado
Cecília sorri e diz que não se importa e ele fica vermelho e abaixa um pouco a cabeça tentando esconder o rosto.
—Isso fere meu orgulho como homem, depender demais dos outros é ser um incômodo.
—Então vá arranjar um emprego, coloque comida na mesa. - Disse Jean enquanto tentava encerrar o assunto vergonhoso.
—Nem precisava dizer, eu já estava de saída, idiota! - Diz ele mostrando a língua e abaixando a pálpebra inferior com o dedo
—Ao menos coma alguma coisa antes de sair. O de cabelo branco parece ser um bom cozinheiro.
—O café da manhã está na mesa, vão demorar muito? Eu não dependo de vocês pra comer de qualquer forma...
 Todos se sentam e começam a comer, durante a refeição Cecília comenta com a boca cheia: “Cabelo branco, você daria uma ótima esposa.” e o Lobo parece ficar lisonjeado e envergonhado. Jean e Riki começam a se encarar e rir e Cecília parece não entender.
—Um momento assim seria impossível em Cylan. - Comenta Riki pensativo
—Não irei discordar. - Confirma Jean
 Logo Riki sai da pensão, ao fechar a porta, Cecília dá ordens ao Hawk para segui-lo. Lobo pergunta se é realmente necessário e Jean responde: "Aquele caipira nunca deve ter visto uma cidade, caso ele se descontrole pode acabar sendo preso." e o Lobo afirma com uma cara de interessado: "Entendo, você parece se preocupar muito com ele, vocês por acaso são amantes?"
—Eu sou homem, idiota! - Diz Jean intrigado.
—Oh, claro... - Diz Lobo com uma expressão de desânimo.
 Cecília começa a gargalhar e logo para
—Na verdade eu estou mais preocupada com os habitantes daqui, caso ele fique nervoso podem acabar acontecendo coisas ruins. - Diz ela com uma expressão de tensão
 Cecília tira da mochila um tipo de esfera de cristal, na mesma, a visão de Hawk era exibida. Riki podia ser visto andando pela rua de cabeça baixa com as mãos nos bolsos, chutando uma pedra. Ele parecia estar reclamando de algo. Lobo se aproxima e senta-se de frente para assistir. "Ele não parece saber o que está fazendo." comentou Jean observando de longe.
 Lobo foca seu olhar em um ponto específico da esfera, se levanta e vai até a porta.
—Aonde você vai, paspalho? - Indaga Jean olhando pro Lobo.
—Tenho assuntos a tratar, apenas fique calado! - Disse isso e logo após saiu andando.
—Cecília, ele é muito irritante! - Disse Jean rolando no chão do cômodo.
—Não seja imaturo, ele cozinha pra gente de graça. - Disse com um sorriso no rosto.
—O que é aquela luz na frente do Riki? - Diz Jean que se ajeitava ao lado dela.
—Não parece boa coisa... - Diz ela enquanto observava atentamente.
—Ué? Cadê todo mundo? - Diz Jean com cara de espanto encarando a esfera.
 Riki para e observa a luz até ser empurrado brutalmente para trás por uma explosão.  Enquanto cuspia sangue ele se levanta e vê Lobo gritando com uma menina que aparentava ter metade da idade dele e usava um vestido rosa claro cheio de babados e outras frescuras, seu cabelo era carmesim com um rabo de cavalo em cada lado, seus olhos eram azuis claros em seu rosto infantil e pele clara.
—Já falei pra parar de aparecer assim do nada. - Lobo gritava com a menina
—Ah, cale a boca, você tá parecendo nossa mãe... - Dizia a garota enquanto se levantava limpando as roupas.
—Mãe? Eles por acaso são irmãos? - Pensou Riki antes de cair novamente no chão.
Lobo olha para o lado e vê Riki no chão.
—Tarad- Riki, esconda essa droga, estamos em público.
Riki olha ao redor, ninguém parecia poder vê-los.
—Quem é esse tal de Riki? - Dizia ela olhando para o próprio com cara de interessada
—Lobo, quem é essa? E por que ninguém está nos vendo? Responda rápido ou eu tiro minhas roupas!
—Hm... - Lobo olhou fixamente para Riki com um olhar malicioso.
—Irmãozão, você por acaso tem interesse nesse humano miserável? Opa, o que é aquilo saindo do braço dele?
—Humano miserável? - Riki sussurra afogado em desânimo
—Riki, essa é a Hiromi... - Explicou enquanto apontava para cima -  E esse é meu campo interdimensional, enquanto estivermos aqui dentro, ninguém poderá nos ver, podemos até fazer coisas indecentes. - Exemplificou fazendo um gesto pervertido com as mãos.
—Riki, não é? Você é a presa do meu irmão? Prazer em conhecê-lo...
—Presa? Ela se referiu àquela coisa de almas e tudo mais? Ah, muito prazer...
—Isso aí mesmo, tarad- Riki... Hiromi, o que veio fazer aqui?
—Vim ver seu progresso, você não tem dado nenhum feedback do que anda fazendo. E eu meio que senti saudades do meu irmão idiota. - Disse enquanto corava um pouco.
—Hiromi... -  Disse Lobo com um sorriso tímido.
—Responda logo, o que é aquilo saindo do braço dele?
Hiromi leva um soco leve na cabeça.
—Você não estudou? É a Lâmina do Eclipse, ele é o novo portador.
—Ah, sim, sim...
Hiromi tira do coldre uma pistola de pederneira e dispara na cabeça de Riki.
—Ah, eu também queria confirmar isso... - Disse Lobo de braços cruzados com uma mão no queixo
O projétil atravessa o crânio de Riki, que cai no chão inconsciente e uma poça de sangue se forma no chão.
 Riki acorda na pensão com todos em volta dele, porém, não conseguia falar ou se mover.
—Ah, então era verdade, a regeneração fornecida pela Lâmina do Eclipse é realmente alta. Tiros normais não devem ter efeito algum. - Comentou Hiromi aparentando estar surpresa
—Hiromi, o que você teria feito caso ele não acordasse? - Disse Cecília com cara de raiva.
—Ah, eu ia revivê-lo, afinal, ele é presa do meu irmão, não minha...
—Não tinha outra forma de confirmar sem atirar nesse idiota? - Perguntou Jean
—Ah, nós poderíamos apenas ver a mácula em forma de Lua Minguante no ombro. Tinha me esquecido disso. - Disse Lobo que tinha acabado de se lembrar e mostra o ombro de Riki para todos.
 No ombro direito de Riki havia uma espécie de tatuagem em forma de lua minguante, ela estava coberta pela manga da camisa.
—Esse cara é tão idiota. - Pensou Jean enquanto cobria o rosto com a mão.
—Se apenas víssemos uma marquinha não seria tão divertido. - Disse Lobo com uma expressão irônica
—Vocês poderiam ter atingido o cérebro dele, não? Ele poderia ter morrido, não? Isso foi perigoso de mais, não?
—Fica tranquila, Cecília! Ele não tem um cérebro. - Disse Jean rindo e foi ignorado por Cecília.
—Agora que parei pra pensar... Lobo, qual a sua relação com a Hiromi? - Indagou Cecília com uma expressão confusa
—Ela é minha irmã mais nova... Às vezes ela vem me ver. - Disse ele afagando a cabeça da Hiromi enquanto ambos sorriem.
—Vocês dois são demônios? Tipo... Irmãos demônios? - Diz Jean aparentando estar um pouco interessado
—Isso mesmo, vai encarar? - Disse ela com uma expressão irônica enquanto fazia pose - Ah, parece que tenho que ir, deixaremos nosso duelo para outra hora, Cabeça de Esfregão...
—Mas eu nem te desaf- Hiromi some em uma nuvem de fumaça.
—Ah, ela já foi? Eu não estava conseguindo me mover... Lobo, você sabe de mais alguma coisa sobre esta tal de Lâmina do Eclipse?
—Só nos é informado que ela é bem poderosa e pode regenerar o portador... Riki, me encontre de noite no píer, eu quero testar o real poder disso aí.
—Ah, tudo bem.
—Jean, uma coisa que eu realmente não faço ideia e queria te perguntar... Com que tipo de arma você luta? - Diz Lobo com uma expressão séria
—Segredo...
Lobo não diz nada, fica com uma expressão indiferente e coloca as mãos nos ombros de Jean e o olha nos olhos.
—O que está fazendo? Estupro é crime, sabia? - Comenta Cecília pouco antes deles desaparecem do nada
Jean olha em volta e vê que agora eles estão no telhado.
—Como as-!? - Ele é interrompido por um soco do Lobo - Então você está sério, não é?
Enquanto Jean limpa o sangue de sua boca e vê que Lobo está em posição de luta, invoca rapidamente uma Kusari-gama, uma foice curta presa a uma peça de chumbo por uma corrente não tão longa.
—Ah,  uma Kusari-gama... Por essa eu realmente não esperava. - Comentou com uma expressão que misturava calma e surpresa.

Capítulo 6 - Provação


Jean lança a parte contundente e a prende na perna do Lobo, avançando rapidamente e desferindo golpes rápidos com a foice, Lobo consegue desviar de todos e segura o braço de Jean, que rapidamente o derruba puxando a parte que está presa na perna do Lobo, Jean tenta desferir outro golpe com a foice mas o Lobo o chuta no estômago e o lança pro canto do telhado.
 Jean se segura no telhado com a foice e joga a parte contundente contra o Lobo, que chuta a mesma para cima em uma velocidade absurda, Jean a puxa de volta e volta a lançá-la alvejando as costas do Lobo.
 Quando a foice voltava Lobo desviou pulando por cima da mesma, Jean avança rapidamente para aproveitar um ataque oportunista e tenta um ataque direto com a foice, Lobo desvia o golpe de Jean e o chuta na cintura, Jean tosse sangue com o impacto. 
—Já chega, vou acabar te matando...
 Lobo os teleporta de volta para o quarto.
—O que vocês estavam fazendo?! E por que o Jean tá sangrando? - Indagou Cecília
—Eu fui descobrir que arma ele usa...
—Uma Kusari-gama, né? - Comenta Riki que estava sentado
—Sim...
 Cecília fica sem dizer nada com uma expressão confusa
—Lobo idiota, você não usa armas? - Pergunta Jean cuspindo sangue jogado no canto da sala
—Eu precisei? - Disse ele tentando conter o riso.
—Você é só um idiota convencido, na próxima eu arrebento essa tua cara de chimpanzé com dor de barriga!
—Na verdade eu uso, mas evito ao máximo depender dela.
—Que tipo de arma esse idiota deve usar? - Pensou Jean limpando o sangue da boca com um lenço.
Cecília olha para a arma de Jean com uma cara confusa.
—Isto aqui é uma Kusari-gama? - Disse Cecília enquanto pegava a arma e ficava olhando
—Sim, meu tio me deu antes de vir trabalhar aqui.
—Como você aprendeu a usar isso? - Perguntou Riki enquanto usava a ponta da lâmina do eclipse para limpar as unhas do pé
—Ele tinha me dito os conceitos básicos de como usar, desde então eu treinei sozinho.
—De qualquer forma, é bem raro ver uma dessas. Como já está quase na hora de patrulhar,  vou indo.
—Eu vou é dormir, vocês só me dão dores de cabeça. - Diz Cecília indo para o quarto
—Boa noite! - Diz Riki acenando
—Boa noite, Riki! Evite ficar na rua até tarde, pode ser perigoso. - Diz ela sorridente.
 Riki concorda e sorri de volta.
—Jean, se ainda estiver respirando venha conosco! - Sugere Lobo olhando ele jogado no canto
 Jean se levanta e os segue rumo ao porto. Durante a caminhada Riki sussurra para o Lobo.
—Sei do trato que temos, mas por que você está nos auxiliando? Demônios não eram pra ser ruins?
—A única diferença entre Demônios e os outros seres, é que não possuímos regras de vivência, nosso senso comum nos guia.
—E você quis nos ajudar? - Pergunta Riki
—Caso eu não estivesse com vocês, eu estaria por aí, incendiando vilas, colecionando cabeças e acabaria ficando entediado.
—Ah, claro. Seus passatempos seriam super normais e saudáveis. Por que estamos aqui afinal? - Indagou Riki enquanto percebia que estava em uma espécie de taverna.
—Aqui tem o clima perfeito pra conversar sobre isso. - Disse Lobo sorrindo antes de tomar um tom sério - Recentemente tem ocorrido assassinatos neste distrito de Vemantis.
—E você quer que a gente capture o assassino idiota? Por que não nos falou isso antes de nos puxar até este lugar, seu idiota? - Comentou Jean em um tom sério
—Que bom que você entendeu rápido, achei que realmente teria que gastar umas horas te explicando...
—Você tem alguma descrição de como ele é? - Perguntou Riki
—Não, esse é o problema, ele ainda não foi visto por absolutamente ninguém.
—Então como espera que o encontremos, idiota?
—As vítimas...
—O que tem as vítimas? - Indaga Riki
—São todas de Cylan.
Jean continua indiferente e Riki comenta: "Nós estamos entre os possíveis alvos."
—Ah, é... - Diz Jean mantendo a expressão e alguns segundos se passam sem palavra alguma ser dita.
Jean percebe a situação e entra em desespero gritando: E agora?! Mal cheguei e já querem me matar? Eu sou jovem demais.
 Grande parte dos velhos que ali bebiam olharam para ele. Riki sussurrou para Jean com uma expressão de indignação: Cale a boca, animal! Quer chamar a atenção do assassino direto pra gente?
 Lobo começa a rir disfarçadamente enquanto faz um gesto girando o indicador da mão esquerda para quem parecia ser o barman e logo em seguida uma lata é jogada em sua mão em uma velocidade surpreendente.
—Você deve ser um cliente frequente, certo? - Diz Riki interessado.
—Podemos dizer que sim.
—Sem enrolar mais, qual é a recompensa?
—Se você pudesse dar um valor a sua vida, que valor daria?
Riki se cala por alguns segundos com uma expressão pensativa em seu olhos.
Um grito feminino é ouvido, parecendo vir do exterior da taverna, mas logo após é cessado. Todos se levantam para verificar o que aconteceu, enquanto os outros velhos pareciam estar bêbados demais para sequer pensar em levantar. A situação lá fora parecia calma, devido ao horário o movimento nas ruas era quase nulo, se não fosse por alguns gatos vadios e um vulto fugindo pra longe em uma velocidade incrível, deixando pra trás apenas uma poça de sangue que se estendia por alguns metros.
 Riki puxa Jean pelo braço o incentivando a ir com ele.
—Corra! Vamos atrás dele, a distância ainda não é tão grande, podemos alcançar o suspeito e acabar logo com isso. 
 Porém logo é parado por Lobo que coloca a mão em seu ombro.
—Agora é praticamente impossível.
 Riki ignora os avisos e tirando o a mão do Lobo de seu ombro, corre seguindo os rastros de sangue, até que ao chegar próximo a esquina onde tinha visto o suposto assassino virar, é puxado pra traz por Lobo rapidamente e é respondido com um grito de Riki
—POR QU- Antes que pudesse terminar de falar, um feixe de energia imenso atravessa o lugar onde ele iria pisar no instante seguinte. - EEEEITA P****! - Gritou Riki espantado
—Você está agindo completamente por impulso, babaca! Não estava claro que era apenas uma isca?
—I-isca? - Diz Riki caindo de bunda no chão
—É melhor voltarmos para casa, estou com um... Mal pressentimento. - Sugere Jean espantado pela quantidade de energia.
—Ah, tanto faz... - Diz Riki aparentando estar um pouco confuso - Você acha que sou incapaz de simplesmente matá-lo? Eu me regenero, não lembra?
—Um assassino qualquer consegue fazer um estrago desse tamanho? - Disse Lobo apontando para o buraco provocado pelo feixe de energia - Além do mais, no seu nível atual é bem improvável que consiga causar qualquer dano em algo daquela magnitude.
 O sangue que estava no chão começa a evaporar sem que eles percebam. Enquanto Jean olha pra lua crescente e comenta que faltam poucos dias para a lua cheia.
—E...? - Indaga Lobo
—Estaremos prontos para atacá-los até lá. - Afirma Jean em um tom confiante
—Algum motivo em especial? - Pergunta Riki
—Apenas sinto que será melhor até lá, vamos treinar nesse meio tempo, as chances de morrermos serão mais baixas se soubermos com o que estamos lidando.
—Não parece uma má ideia... - Admite Lobo
—Irei confiar em seus instintos, Jean... - Disse Riki enquanto esboçava um sorriso tímido.
—Obrigado, idiota. - Sorrindo de volta.
—Algum dia mato esse babaca. - Pensou Riki com um sorriso psicótico
—Lobo, se você sabe quem é o inimigo, nos diga logo. - Disse Jean com um olhar penetrante.
—Não faço ideia, mas é uma grande quantidade de poder. - Responde Lobo calmamente e em tom sério, sem tentar desviar o olhar
—Então tá... - Disse Jean sem se importar muito.
—Vamos voltar logo, seus medrosos. - Disse Riki em um tom irônico, tentando manter a compostura.
 Enquanto isso em um beco distante...
—Capitão, não parece que a armadilha deu certo... - Comenta pouco antes de ter sua cabeça decapitada.
—Darei até a lua cheia como últimos momentos deles, aí então os atacarei, quero ver sangue carmesim refletindo a luz da bela lua de Vemantis. - Diz animado, sua voz era grave.
—Esse é o trigésimo sexto servo que você mata essa semana, você não se cansa?
—Calado ou você será o próximo. - Disse enquanto apenas seus olhos sombrios aparecem de relance.
—Tá, tá... - Diz em tom alegre, tentando finalizar o assunto.
—Esses ratos de Cylan vão ter o que merecem, invadindo minha amada Vemantis sem ao menos pedir minha permissão... - Diz com orgulho e determinação
A cena volta para Riki, Jean e Lobo, já no caminho para a pensão.
—Lobo, você não disse que queria testar o real poder da minha espadinha de braço?
—Isso fica pra batalha que está por vir, parece que algo real será o melhor teste possível.
 Todos andavam rumo a pensão que estavam alojados sem dizer quase nada, um comentário ou outro de Lobo quebrava o silêncio que logo retornava cada vez mais forte.

Capítulo 7 - Empenho


 Chegando próximo ao porto em que chegaram a Vemantis, Lobo comenta que ficaria por ali mesmo a patrulhar. Jean oferece companhia durante a patrulha, mas logo de cara Lobo recusa sem explicar o motivo e Jean fica com uma expressão de não se importar muito.
 Quando os dois chegam na pensão logo percebem que a porta parecia ter sido arrombada, a fechadura estava quase que completamente destruída e Cecília não parecia estar lá. Havia apenas uma mancha na parede da cozinha com o que parecia ser uma sigla "C.P.V".
 A única coisa que vem a mente deles é que ela tinha sido raptada. Logo vão perguntar a senhora responsável pela pensão se tinha ocorrido algo e mostraram a ela o estado do quarto. Era uma mulher idosa com roupas gastas mas com um rosto gentil, ela usava óculos redondos, tinha a aparência padrão de avó.
 Ela começa a reclamar em um tom absurdamente alto e perguntando o motivo deles terem quebrado o quarto, perguntaram-na o que significava aquela sigla. 
—Esse é o símbolo da Companhia Protetora de Vemantis, vocês provavelmente estão sendo caçados... São de Cylan? - Perguntou ela
—Caçados? Quem nos caçaria? - Indagou Jean ignorando a pergunta da velhota.
—Tanto faz, temos que achar Cecília. - Respondeu Riki
—Seu idiota, não está mais do que na cara de que quem está nos caçando sequestrou Cecília? - Disse Jean
—Mas eles não estão completamente na ilegalidade. - Interrompe a dona da pensão.
—Como assim? Sequestro não é crime? - Perguntou Riki
—As leis de Vemantis não são bem... Como posso dizer? - Ela para e pensa um pouco ajeitando os óculos - Aplicadas a quem vem de Cylan. Sua amiga pode ter sido presa. - Ela responde em um tom calmo.
—Então somos perseguidos como animais apenas por ter vindo pra cá? O rei sabe disso? - Perguntou Jean.
—Colocando desse jeito soa meio triste. O novo rei ainda não foi revelado, mas devem ter muito poder devido ao controle populacional de imigrantes. - Diz ela enquanto ajeitava um quadro da parede semidestruída.
—Ah, chega disso! Cadê esses inúteis? - Grita Riki com o sangue fervendo de ódio.
—A gente não ia treinar? - Diz Jean enquanto estala os dedos e boceja olhando para o relógio de parede.
—Pera, estamos tão mal assim? - Pergunta Riki um pouco mais calmo. - Se bem que agora temos um motivo para isso.
—É sempre bom se preparar, né? - Responde Jean com um sorriso desanimado enquanto lembrava da luta com Lobo.
—Ah, vocês não acham que é muito tarde pra "treinar"? - Perguntou ela - Já que a situação de vocês está tão ruim, deixarei vocês ficarem nesse quarto por mais um tempo. - Disse com um sorriso piedoso.
—Opa, valeu velhota! - Disseram quase que simultaneamente.
 A velh- Dona da Pensão saiu do quarto rindo um pouco e os advertiu para que não destruíssem mais nada enquanto ela fazia uma expressão psicótica.
—Amanhã começaremos o treino, algo a dizer, idiota? Pera, você tá dormindo, seu idiota? - Dizia Jean enquanto tentava acordar Riki, mas em pouco tempo desistiu e foi dormir.
 O sonho de Riki começava a se formar em uma névoa, ele via diversas pessoas da sua vila natal em chamas, revê o massacre de Cylan acontecendo novamente, começa a ver Cecília com uma expressão de pânico e diversos flashbacks se passam em uma velocidade absurda, até que tudo fica em branco, ele só pode ver uma luz verde vindo em sua direção lentamente até que ela chega até a marca em seu ombro que começa a brilhar e logo após se apaga.
 Ele fica um pouco confuso até que a lâmina começa a sair de seu braço rapidamente, trazendo consigo a luz que acabara de entrar em seu ombro. Vozes são ouvidas ao longe.
—Estás confiante demais em sua regeneração, veremos como se vira sem ela. - E a luz começa a esvair-se lentamente como poeira ao vento.
—Espere, quem é você? - Indagou Riki
 Porém, antes que obtivesse uma resposta a luz já tinha desaparecido. Logo após Riki acorda sem sono pensando no que ouviu durante o sonho, faltava pouco tempo para o sol nascer e ele decidiu se empenhar no treino, foi andando até a praia pra acordar com a maresia.
 Seu olhar foi em direção ao píer onde chegaram de Cylan e começou a pensar em Cecília, enquanto está distraído leva uma paulada na cabeça e fica inconsciente.
 Riki acorda amarrado em um barco de pesca de médio porte, junto a Jean que também se encontrava na mesma situação. Alguém  sentado em um banquinho os esperava acordar e logo os desamarra.
—O que estamos fazendo aqui? E por que minha cabeça está sangrando? - Pergunta Riki olhando sua mão ensanguentada
—Acho que não é normal ter maresia em uma pensão. - Ele olha ao redor bem devagar - Por que estamos em mar aberto? - Comentou Jean em um tom calmo enquanto coçava os olhos e se espreguiçava.
—Parece que as duas princesinhas acordaram. Como parte do treinamento, vocês irão pescar comigo hoje. - Diz Lobo que apoiado na proa olhando as ondas, estalava os dedos.
—Pescar? Você só pode estar zoando. - Disse Riki cerrando o punho com uma expressão de raiva.
—Não, não, estou falando sério. - Disse Lobo enquanto olhava para um relógio de bolso - E parece que está quase na hora.
—Hora do quê? - Pergunta Jean bocejando
 O barco começa a tremular, são ouvidas diversas batidas no casco, e logo em seguida uma onda gigante se forma, uma besta marítima com aparência de lula com quatro vezes o tamanho do barco surge.
—Eis o trabalho de vocês hoje, essa besta estava atacando a costa sempre no mesmo horário desde a semana passada, os pescadores estavam reclamando, vocês tem que resolver isso. - Diz Lobo com sua clássica expressão de indiferença
—CARA, MAS QUE DESGRAÇA É ESSA? - Dizem enquanto desviam de um golpe de tentáculo que quebra o barco ao meio.
—Onde que isso é pesca, demônio maluco? - Gritou Riki em desespero
—Você não está só jogando seu trabalho pra cima da gente, idiota? - Disse ao sacar a Kusari-gama e começar a girar a parte de chumbo enquanto analisava a criatura.
—Não, é treinamento! - Disse Lobo enquanto lixava as unhas boiando em um banquinho
—Por que parece que você está mentindo? - Disse Riki enquanto fazia surgir a lâmina, mas antes que fizesse-a surgir por completo sentiu uma dor insuportável que a fez retornar, seu braço tinha começado a sangrar, o que o fez lembrar do sonho e logo imaginar que não poderia usar a lâmina sem seus poderes de regeneração.
—Por certos motivos, não vou poder usar a lâmina, Jean! - Gritou enquanto tapava o sangramento com a mão e se equilibrava em um dos destroços do barco.
—Por que não disse antes, idiota? - Comentou em um tom irritado.
—Alguma solução? - Perguntou enquanto pulava para outro destroço desviando de um golpe da lula.
—Você não consegue invocar nenhuma outra arma? Tipo a minha? - Disse enquanto desviava pulando para uma parte do mastro que estava boiando.
—Não faço a mínima ideia de como fazer is- Enquanto estava distraído, Riki foi atingido por um golpe de tentáculo da besta marinha e caiu no mar.
 Rapidamente nadou até onde estava Jean, Lobo observando toda a situação começou a encarar Riki e após se concentrar um pouco fez aparecer um baú velho boiando ao seu lado, chamou a atenção de Riki acenando e chutou o baú em sua direção, Riki tinha acabado de rasgar a manga esquerda de sua camisa para fazer uma atadura no ferimento deixado pela lâmina.
 Jean percebe o ferimento e pergunta se iria demorar muito para regenerar, porém, Riki ficou calado e puxou o baú que o Lobo tinha chutado. Ao abrir o baú viu que era uma espada de energia completamente decorada e brilhante, Riki a observou com brilho nos olhos até a mesma ser destruída por outro ataque da lula.
 Lobo ao fundo começou a rir muito alto. Enquanto a lula deu um tipo de grito ensurdecedor e tentou atingir Lobo com um de seus tentáculos, Lobo aparou o golpe com um dos pés, o que causou um grande e sonoro impacto e o arremessou para trás.
Lobo cambaleou e quase caiu na água, se firmando sobre outro destroço e encarando Jean que estava girando a parte contundente já faziam alguns minutos.
 Jean estava olhando pra Riki distraído, logo se virou e pulou de destroço em destroço até chegar próxima a lula que ia atacar Lobo novamente, Jean jogou a parte contundente que se enrolou no tentáculo e a puxou antes que pudesse atingir Lobo, que permanecia indiferente diante ao tentáculo que estava acorrentado à sua frente, Jean começa a puxar com muito esforço e o corta com a foice, porém em questão de segundos o mesmo é regenerado.
 Enquanto isso Riki rola por cima do destroço gritando de dor.
—Lula idiota, lula idiota, lula idiota, lula idiota, lula idiota! - Gritava Jean repetidas vezes enquanto desviava dos ataques e cortava os tentáculos que se regeneravam em poucos segundos.
 Riki se levantava lentamente resmungando como uma velhinha.
—Tarad- Riki, não vai ajudar o seu namorado? - Perguntou com expressão de interesse.
—Pareço estar em condições de fazer algo, sua anta? E ele não é meu namorado, babaca! - Gritou para Lobo que fez uma expressão de desapontamento.
Jean parecia nunca se cansar, já devia ter dado mais de duzentos cortes nos tentáculos que vinham atacá-lo sem pausas, Riki percebendo a situação começou a pensar no que fazer.
—Como posso derrotar um molusco mutante gigante sem usar uma arma? - Perguntou a si mesmo.
—Jean, você tem de destruir o núcleo, se não a regeneração não vai parar. - Comentou Lobo de longe, enquanto tomava sol de bermuda florida, usando óculos escuros e sem camisa deitado sobre um destroço plano.
—Por que você não me disse isso desde o início, idiota? - Resmungou ele
 Enquanto Riki sentia que não podia fazer absolutamente nada, Jean atacava incessantemente e Lobo parecia estar ficando irritado com Riki sendo inútil.
—Riki, pra não ser um idiota inútil hoje também, que tal arranjar alguma arma ou algo parecido? - Indagou Jean
—Mas nós estamos no meio do oceano. - Retrucou com uma expressão de desacreditamento.
—Ah, é...
—Não, na verdade... Eu não posso ser protegido pra sempre. - Pensou Riki
 Riki mergulhou em busca do núcleo da regeneração da lula e deixou de ser visto da superfície, ele se sentia como se estivesse sendo dilacerado pela água salgada que entrava nos ferimentos, quando abriu seus olhos em meio a tanta água turva não conseguia ver claramente. Se aproximou da criatura que parecia estar distraída com Jean e chegou ao que parecia ser o núcleo. 
 Era um tipo de esfera vermelha brilhante com uma textura parecida com vidro e quase do tamanho de sua cabeça. Riki a esmurrou com força, enquanto seu punho ainda estava tocando a esfera, impulsionou a lâmina para fora, perfurando-a e rapidamente retraiu a lâmina.
 Riki usou as forças e o fôlego que lhe restavam para nadar até a superfície e se pendurar em um destroço, entretanto, poucos segundos se passam até um grito altíssimo ser ouvido da lula. Seus tentáculos tinham parado de se regenerar e em um golpe a criatura arremessou Jean pra longe, caindo na água, a lula começou a se afastar rapidamente, ao chegar próxima ao Lobo começou a afundar lentamente enquanto sangrava.
—É, parece que os cortes do Jean fizeram efeito agora.
 De repente, surge um Kraken com o o quíntuplo do tamanho da lula e a devora em uma única mordida, afundando-a em seguida. Riki que estava deitado em um destroço olhando ficou impressionado e Jean que estava se apoiando em outro destroço estava com a expressão quase idêntica. A onda que foi gerada pelo Kraken os impulsionou para trás, em breve toda a água voltou ao normal.
—O que faremos agora? - Perguntou Jean olhando para o Lobo ignorando o que tinha acabado de acontecer
—Talvez vocês possam fazer algo pela cidade, ainda não é nem meio-dia. - Respondeu Lobo bocejando
—Parece uma ótima ideia. Estou morrendo de fome. - Disse Jean enquanto sorria
—Vocês não estão esquecendo de nada? - Disse Riki enquanto cobria o ferimento com a mão.
—Ah, sim...
 Lobo logo pulou diretamente no destroço onde estava Riki. Jean foi nadando até lá. Lobo levantou o dedo indicador e o médio simultaneamente e passou nas bordas do ferimento de Riki que rapidamente parou de sangrar, porém, manteve-se aberto soltando um tipo de fumaça vermelha que em breve cessou.
—Você não podia ter feito isso antes? - Diz Riki com uma expressão de desentendimento
—Não foi uma boa ideia nem sequer ter feito isso. - Respondeu com uma expressão de indiferença.
—Por que? - Perguntaram Riki e Jean ao mesmo tempo
—Isso só tem um efeito anestésico, daqui a um tempo pode ser que volte dez vezes pior. - Disse com uma expressão de indiferença
—Ah, tanto faz... Só uma coisa que eu estava esperando que alguém respondesse... Como é suposto que voltemos pra pensão?

Capítulo 8 - Forja


—Caramba, nunca pensei que aquele babaca ia nos fazer vir nadando. - Comentou Riki enquanto estava ofegante cobrindo o rosto com o braço esquerdo, deitado na areia da praia.
—Onde ele foi afinal? - Disse Jean enquanto estava de cócoras com os cotovelos sobre os joelhos olhando o mar. E logo após com uma expressão pensativa completou - Como você fará para batalhar e resgatar a Cecília agora?
—Provavelmente treinarei meu corpo para lidar com isso caso não haja outra solução, pode doer, mas sinto que se eu continuar do jeito que estou nunca poderei dominar este poder.
—Contanto que você se esforce, pode até ser possível. - Jean aponta para o braço direito de Riki - O desenho do seu ombro tá brilhando.
 O buraco no braço de Riki começa a se fechar lentamente mas para antes de fechar-se por completo. Riki tenta forçar o ante-braço, mas a lâmina não sai.
—Sinto que algo foi tirado de mim. - Comentou com uma expressão incomodada.
—Aí, Rikidiota... Eu estava conversando com o Lobo, ele comentou algo com você sobre a tal da "Forja Divina"? - Perguntou forçando a vista, tentando ver os barcos mais distantes.
—Não, ele só me diz coisas inúteis, Jean! - Disse de olhos fechados. - Do que se trata afinal?
—Ele falou alguma coisa sobre criaturas lendárias soltarem algum tipo de essência vital quando são mortas, essa essência pode ser usada para essa forja aí... - Disse enquanto desenhava um sorriso na areia com o dedo.
—E por que está me dizendo isso do nada?
—Você é idiota ou idiota? Eu queria uma dessas essências idiotas pra fazer uma Kusari-gama mais poderosa pra mim.
—A força depende mais do portador do que da arma, você sabia? - Disse Riki com uma expressão sarcástica.
—Você só está com inveja por não conseguir usar a sua lâmina idiota, não é?
—Acho que eu tenho que resolver isto logo... -  Disse Riki tentando esconder a frustração estampada em suas feições.
 Ao longe uma voz masculina ressoa: "Hey, garotos!" e ambos olham para o píer. 
—O que você quer? - Perguntaram Riki e Jean quase simultaneamente.
 A figura se aproxima andando rapidamente e logo eles podem ver seu rosto.
—Você é o velhote do barco, não é? Não pude te reconhecer sóbrio. - Disse Riki sorrindo
—Opa, e aí garoto. Lobo mandou um recado... Ele disse que teve uns assuntos urgentes e vai demorar um pouco pra voltar e falou também pra um tal de tarado por peixes buscar uma tal de "arma temporária". - Disse pouco antes de se despedir. - Ah, se tiver notícias sobre um barco perdido, me procure, eu tinha comprado um novo, mas acho que roubaram.
—O que faremos enquanto aquele idiota não volta? - Perguntou Jean ao Riki
—Treinar por conta própria? - Sugeriu Riki
—Mas você precisa da "arma temporária", não?
—Vamos logo olhar juntos a droga do centro de Vemantis, sempre que tento ir sozinho acontece algo que me impede... Da última vez fui explodido por uma garotinha e levei um tiro. Agora vai dar certo. - Disse com determinação.
 Ambos seguiram caminho rumo ao centro de Vemantis, após chegarem, podiam ver diversas tendas e lojas, estavam agora no distrito comercial de Vemantis, um lugar imenso com chão de paralelepípedos e superlotado onde vendia-se de tudo. Logo Jean avista uma loja que parecia supostamente vender armas e ambos se dirigiram até lá, perfurando a multidão aos poucos.
—Por que isso aqui tá tão lotado? - Indagou Jean enquanto era quase esmagado pela aglomeração.
—Sei lá, dev- Riki bate de cara em uma placa de madeira e cai no chão - Que droga é essa? - Perguntou enquanto se levantava meio desnorteado.
—Acho que é um quadro de avisos... - Disse enquanto observava atentamente cada folha pregada no painel - Riki... Olha! - Disse com uma expressão de raiva e surpresa.
 Era um anúncio de execução pública, ambos ficaram surpresos, até verem que se tratava do rei.
—O rei será executado? - Indagou Riki.
—Não fará diferença alguma pra nós, vamos logo cumprir nosso objetivo. - Disse com um olhar de desinteresse.
—De qualquer forma, é uma vida, pretende realmente deixá-la acabar assim do nada?
—Oh, não sabia que você se importava com desconhecidos. Qual o motivo de tanta hipocrisia?
—Não é que eu me importe, tem de haver ao menos uma justificativa.
—Tá aqui no papel a sua justificativa, Senhor Caipira Tarado Por Justificativas Idiotas Sobre Execuções Públicas de Reis Igualmente Idiotas - Jean aponta pro papel antes de ler em voz alta - "Na eleição de cada sucessor do reinado, o seu antecessor é executado publicamente." e bla bla bla... Deve ser a forma que eles encontraram pra limpar seus pecados e manter a inexistência de uma família real em Vemantis, acho que é algum tipo de ritual sagrado.
—Você acha esse motivo justo? Não sabia que não existiam famílias reais em Vemantis.
—Justo claramente não é. Porém, é uma justificativa aceitável pro povo daqui, pelo que pude perceber.
—Não tenho tanta certeza. Quando será a execução?
—Hm... Daqui a pouco. Tem planos de interferir?
—Acho melhor não, não tenho meios de lutar por enquanto. - Diz botando a mão sobre o braço direito.
—Mesmo que fosse tentar, não teríamos muitas chances.
—"Teríamos"? Você pretendia me ajudar?
—Sim, queria você me devendo alguma coisa, seria minha recompensa por aturar um idiota, seu idiota!
—Por que não teríamos "chance alguma" afinal?
 Jean aponta para um grupo de cavaleiros com armaduras cromadas com um símbolo de grifo peitoral.
—Está vendo aqueles carinhas de armadura? - Pergunta apontando de forma sutil com o olhar
—Sim... O que tem eles?
—Eles são da guarda real.
—E...?
—Lobo me disse que eles são portadores de armas feitas a partir da forja divina, da essência do grifo celestial, um bicho enorme e pelo que eu entendi são fortes pra ca*****.
—Ele pode ter mentido, tens certeza? Afinal, ele é um demônio, nenhuma regra o impede de dar alguma informação falsa pra você.
—Caipira idiota, você não precisa ser tão desconfiado com quem cozinha pra gente. - Afirmou sorrindo.
—Falando em cozinhar, não lembro de ter comido nada desde hoje de
manhã e ainda não sinto fome.
—Idiota, por incrível que possa parecer, estou na mesma situação.
—Jean, quando vocês conversaram? E por que tinha dito pra ele que não estava com fome?
—Ah, foi um pouco antes de eu ser acertado na cabeça por um pedaço de madeira. E porque eu estava com preguiça de pensar em algo e não tinha o que dizer.
—Ele é realmente imprevisível...
—Que idiota...
 Riki cutuca Jean e ambos seguem até a loja de armas, após um curto
período observando o que havia na loja, foram chamados por um senhor
que estava sentado próximo ao balcão.
—Vocês não são muito novos para comprarem armas?
—Você não é muito velho pra ser idiota? Seu idiota!
—Criança, você tem uma língua mais afiada do que as lâminas aqui vendidas... Vocês tem dinheiro?
—Não muito... - Disse Riki tirando algumas moedas douradas do bolso.
- Riki fica surpreso e tenta lembrar de onde saiu esse dinheiro e logo
dá um sorriso esnobe - Acho que vou comprar esta loja...
—Haha, nem tudo que reluz é ouro, criança! - Disse pouco antes de ficar surpreso ao ver que as moedas eram de verdade e em um tom sério perguntou - De quem você roubou isso, criança?
 Riki sussurra pra Jean perguntando se ele sabia de onde surgiu aquele dinheiro e Jean apenas negativou movendo a cabeça com uma expressão séria.
—Mesmo assim não poderei vender nada pra vocês, são jovens demais para tentarem se matar. Não quero ser preso por colaborar com isso.
—Não iremos nos matar, velho gagá! Aproveite que está morrendo e me venda logo aquela espada ali, seu inútil! - Disse ao apontar para a espada que estava sobre a porta do estabelecimento, era uma gládio com detalhes prateados na bainha.
—Ah, aquela espada... Ela é realmente boa... Pertenceu ao rei mais justo de Vemantis, nós éramos bem próximos, mas poucos sabem de sua história.
 Logo a seguir, antes que pudessem perguntar algo sobre o assunto, o grupo dos soldados reais chutam a porta e o dono do estabelecimento entra em pânico com o susto.
 Riki sussurra pra Jean: "Acho que esse velhote tá ferrado..."
Um dos guardas que parecia ser o líder do grupo, dirige-se ao balcão lentamente, o som de suas grevas reluzentes batendo no chão de madeira ressoava pelo ambiente. Olha Riki e Jean da cabeça aos pés e afina seu bigode pontudo.
—O que essas crianças fazem em uma loja de armas? - Disse em um tom irônico.
—N-n-n-nada, senhor!
 O que aparentava ser um subordinado do que parecia ser o comandante daquele grupo dá um sorriso intimidador olhando para Riki e Jean.
—Vim cobrar os impostos, aproveitando que estão todos aqui por causa da festa de despedida.
—Mas ainda falta uma semana para a cobrança, senhor... Ainda não tenho o dinheiro necessário.
—Te darei seis viradas de ampulheta para alcançar o valor, caso não pague, sua loja será interditada. - Deu ênfase na última palavra com um tom mais calmo - e vamos aproveitar a execução do rei pra te colocar ao lado dele.
—M-mas como vou conseguir isso em 3 minutos? - Disse em um tom apavorado
—Quatro viradas de ampulheta... - Disse com uma voz suave, porém, com ódio perceptível em seu sorriso irônico, saiu do estabelecimento
 Riki e Jean apenas ficaram observando sem esboçar reação alguma, quando a guarda real sai da loja, ambos olham para o vendedor com um sorriso irônico.
—Acho que não tenho escolha... - Exclamou o vendedor
 Riki sai da loja sorrindo com a espada embainhada em sua cintura e o velho ao fundo completamente estático segurando algumas moedas.
—Espere um pouco Riki, quase me esqueço...
 Jean anda lentamente até a loja, chega na porta e acena para o vendedor sorrindo.
—Velho idiota, obrigado! - Diz em um tom alto e alegre antes de ir.
—Vamos comer alguma coisa. - Sugeriu Riki
—Mas não estamos com fome.
—Não importa, nós temos dinheiro. - Disse sorrindo
—Não seria uma boa ideia compensar a velha da pensão pelos danos causados?
—Quase me esqueci dela. É, realmente me sentiria mal caso não compensasse aquela velhota... Vamos lá primeiro e depois iremos arranjar um jeito de treinar.
 No caminho Riki saca a espada da bainha e a põe de volta diversas vezes com um olhar indiferente que acompanhava a ponta da lâmina, depois tenta várias vezes apunhalar o ar fazendo uns sons estranhos com a boca e logo em seguida para de se mover e olha pro nada com uma expressão séria.
—Jean, já parou pra pensar se tivéssemos armaduras iguais da guarda real?
—Armaduras são desnecessárias, Riki, são pesadas demais. - Disse encarando Riki com uma expressão incomodada - O que está fazendo com essa espada, idiota?
—Dando uma analisada, vou tentar algo depois que conseguir expôr a lâmina... - Disse com uma expressão pensativa - Afinal, não faço ideia de como se usa esta coisa - Disse rindo
—Então pra que comprou, idiota? - Indagou Jean
—Uma espada na mão é uma arma mortífera, pra quem sabe usar, fere os outros, pra quem não sabe, a si mesmo. - Comentou alguém que se aproximava.
—Não lembro de ter te perguntado, idiota! - Respondeu Jean
—Bem... Você tem voz de mulher, cabelo de mulher, curvas de mulher, rosto de mulher... Mas não tem peitos... Estou com a leve impressão que não devo tentar entender o que você é. - Comentou Riki dirigindo o olhar a quem se aproximava
—Isso me deixa realmente desconfiado, Riki... - Diz Jean com a mão no queixo enquanto encarava o busto reto de quem se aproximava.
—Como ousa ser tão desrespeitoso com uma dama, menino? - Diz com uma expressão de raiva marcada pelo franzir de suas sobrancelhas que em pouco tempo cessa e ela direciona um olhar de interesse ao Riki enquanto ajeita seus trajes de sacerdotisa que contrastavam com seus olhos púrpuras e cabelos pretos longos e uma franja bem marcada e reta, rosto fino e olhar encantador, era um pouco mais alta que eles.
—Desculpe-me, pode me dizer o que você quer? - Respondeu em um tom sério
—Uma resposta! - A recém-chegada respondeu rapidamente
—A qual pergunta? - Retrucou Riki
—O que planeja fazer com essa espada?
—Eu não faço ide-... Me proteger!
—De quem ou do que?
—Não interessa, não era só uma resposta?
 Ela dá uma risada de leve. 
—Acho que não é uma boa ideia uma criança como você andar exibindo isso por aí.
—Por que?
—Pode acabar se machucando, você ao menos sabe como se usa uma espada?
—Não.
—Ér... Não é que eu esteja preocupada ou algo parecido... Mas meu pai tem um dojo que ensina a usar espadas aqui perto... Vocês tem algum interesse? - Disse sorrindo
—Irá nos custar algo?
—Depende do seu desempenho inicial, terás de realizar uma batalha de testes com meu pai...
—Parece justo...
—Estão vendo aquela escadaria próxima da montanha do tigre? - Disse apontando ao horizonte, onde era possível ver uma montanha enorme com uma escada absurdamente longa
—Montanha do tigre? Por que esse nome idiota? - Perguntou Jean
—É o nome do templo, tem um significado por trás disso tudo... Enfim, estão vendo a escada?
—Estamos...
—No topo dela está o templo, vão para lá antes do pôr do sol!
—Isso vai ser cansativo pra caramba... - Disse Riki com uma expressão de arrependimento.
—Lá é o melhor lugar possível para se treinar, a vista é linda. Além do mais, é uma oportunidade única na vida. - Disse a mulher com os olhos brilhando de orgulho e um ar de superioridade com as mãos na cintura
—Comparecerei em breve, tenho assuntos a tratar. - Disse Riki em um tom sério
—Você fala como um adulto, mas tem um ar tão infantil. - Comentou Jean
—Isso é um pouco bonito de ser ver, uma criança tentando agir com maturidade...
—Que idade vocês acham que eu tenho? - Indagou Riki
—Talvez quatorze como eu? - Disse Jean com uma expressão entediada
—Nossa, vocês são bem novos... Não é ilegal esse aí portar uma arma? - Disse ela apontando pra espada
—Até agora ninguém reclamou, senhora... - Disse Riki parecendo um pouco incomodado com a situação
—Haha, senhora?! Não sou velha. Enfim, garotos... Vou indo pro templo, tenho que realizar umas tarefas...
—Em breve iremos. - Respondeu Riki
—Pera aí, idiota, eu não lembro de ter concordado com isso... - Disse Jean com uma expressão séria
—Sozinho eu não vou de forma alguma, então largue de ser chato e me acompanhe! - Retrucou Riki
—Onde está aquele demônio nestas horas pra me substituir? - Comentou bufando
—Ele não disse nada antes de sumir, só fez uma expressão como se tivesse lembrado de algo e desapareceu. - Disse Riki tentando recordar da cena que ocorreu depois de assistirem a lula ser devorada pelo Kraken
 Seguiram rumo a pensão para pagar a senhora pelos danos causados. Enquanto isso a cena passa para Lobo no que parecia ser uma biblioteca e Hiromi estava ao seu lado.
—Irmãozão, me diga logo o que está procurando, eu posso te ajudar...
—Não se preocupe, acho que já encontrei o que buscava, vou falar com nossa mãe rapidinho e já vou embora, faz tempo que não a vejo.
—Ela não está em casa, foi fazer algo no mundo dos humanos.
—Justo quando eu volto pra cá? Ela realmente não parece se importar conosco as vezes.
—Acho que vou atrás dela em breve, Irmãozão... Nosso pai está passando por aqueles "períodos" de querer destruir tudo...
—Acho que ele só está aborrecido com algo idiota de novo...
—Não seja tão cruel com ele, ele pode ter seus motivos.
—Somos demônios, geralmente não temos motivos, só gostamos de encher o saco mesmo...
—Lobo, só você é assim. - Disse alguém que entrava na biblioteca
—Falando no demônio... - Disse Lobo com uma expressão de ironia
—Você raramente vem, mudou de ideia? - Perguntou ao Lobo
—Não pai, não quero assumir o trono, estou com preguiça...
—Eu até consideraria isso como humildade, mas o motivo real é tão idiota... - Comentou seu pai.
—Já imaginou-se com o título de Rei do Mundo dos Demônios, irmãozão?
—Não tenho interesse algum em um título inútil como esse.
—Mas... Filho, alguma hora você terá que me substituir...
—Quando chegar a hora pensarei nisso... Enfim, vou indo, já consegui descobrir o que queria... - Disse enquanto fechava um livro empoeirado
—Deixei o portal aberto perto da lareira, pode ir, irmãozão... - Disse Hiromi com uma expressão triste fazendo bico
—Depois te levo pra passear pelo mundo humano, Hiromi, só espera mais um pouco, tudo bem? - Disse Lobo enquanto afagava os cabelos vermelhos de Hiromi - Seus cabelos são macios... - Comentou com uma expressão indiferente enquanto encarava o sorriso que Hiromi tinha acabado de formar em suas feições, pouco antes de atravessar o portal acenando para trás sem dizer nada.

Capítulo 9 - Estagnação


"Me larga, me larga, idiota, eu não quero ir, em nenhum momento eu concordei com isso, seu idiota!" era o que Jean gritava enquanto estava amarrado por uma corda sendo arrastado degrau por degrau por Riki que estava com um sorriso bobo e determinado no rosto almejando o topo da montanha, pouco antes de deixar de sorrir, por ter percebido que teria que arrastar o Jean que estava agindo feito uma garotinha por mais setecentos degraus, até um templo que ele não fazia ideia de como era e o que ensinava além de lutar com espadas.
—Mas que droga eu estou fazendo? - Perguntou Riki enquanto gritava olhando pro céu
 Jean se levantou vagarosamente dizendo "Pode me desamarrar, idiota?" em um tom sério e Riki o desamarra e com uma expressão decepcionada.
—Quanto tempo falta até a Lua Cheia? Onde está Cecília?
Jean responde suspirando com uma expressão de tédio
—Faltam três dias que provavelmente você será forçado a passar treinando justo para salvá-la. E para a segunda pergunta a resposta é... Não faço a mínima ideia.
 Acenando do topo que mal podia ser visto estava a sacerdotisa cujo nome era desconhecido, com seus trajes ao vento.
—A vista é linda, não é? - Disse ela confiante com os braços cruzados em um tom orgulhoso
—Sua ou da cidade? - Respondeu Jean com uma expressão pervertida tentando olhar por baixo dos trajes da mesma
—Pare de ser tão rude, seu infantil! - Gritou Riki enquanto dava um tapa na nuca de Jean
 Jean e Riki olham para o lado, já se encontravam próximos ao topo da montanha, faltava em torno de cinquenta degraus para chegarem em seu objetivo.
 O sol se punha no horizonte, diversas tochas se acendiam pela escadaria, deixando tudo com um toque mais rústico, o portal para o templo era feito de madeira sem muitos detalhes, apenas um tigre esculpido no centro, podia-se ver o centro de Vemantis quase que por completo, uma grande movimentação próximo ao centro comercial, próximo ao altar de execução pública a distância era grande demais para identificar rostos, mas era possível observar a guilhotina descendo e a cabeça de quem talvez fosse o rei, se separando do resto do corpo e a multidão aplaudindo, a expressão de ódio nos olhos de Riki e de Jean era perceptível pela sacerdotisa que tinha acabado de perceber o ocorrido e estava com uma expressão meio triste por eles serem obrigados a assistir algo do gênero.
 Mas em pouco tempo eles chegaram ao templo e tiveram outra vista de Vemantis, dessa vez já era noite e no porto podia-se ver diversos navios e barcos atracados e o mar bem calmo, iluminado por postes de energia mágica que estavam espalhados pelo píer, ambos estavam impressionados com a vista.
—É... Acho que essa vista já compensa o esforço... - Diz Jean suspirando
—Mas eu tive que te carregar até aq- Jean põe o dedo indicador sobre os lábios de Riki sinalizando silêncio - Calado, idiota!
—Fiquei sabendo que você gosta de cair acidentalmente de montanhas, Jeanta... Acho que vou te ajudar com isso... - Respondeu Riki afastando a mão de Jean de seu rosto.
—Vocês andaram até aqui, mas ainda nem olharam pro dojo, rapazes...
—Ah, tem razão, tinha me esquecido a finalidade de ter vindo até aqui... Caramba, é lindo! -  Eles apenas observam boquiabertos a paisagem que ficava atrás da montanha, ainda ignorando o templo eles viam um vale seguido de uma floresta majestosa com diversas criaturas gigantescas sobrevoando o local.
—O que são aquelas coisas voadoras, moça? - Perguntou Jean apontando para as criaturas distantes
—Own, moça? Pode repetir? Hehe... - Disse ela sorrindo - São dragões, grifos e outras criaturas mágicas, aqui em Vemantis tem mais criaturas mágicas do que vocês podem imaginar que teria em alguns continentes... Já que vocês não sabiam disso, podem me responder de onde vieram? Já que isto é conhecimento comum dos nativos...
—É realmente necessário que eu responda? - Perguntou Riki em um tom sério
—Na verdade eu só estava curiosa mesmo... Ah, aquele é meu pai, olha lá! - Disse apontando pra mudar de assunto
—Mas aquilo é uma estátua... - Comentou Riki confuso
—Ah, quer dizer que... Seu pai... - Completou Jean em um tom desanimado
—Sim, meu pai adora se fingir de estátua. - Disse ela sorrindo
 A suposta estátua começa a se mover lentamente, parecia estar dançando e em um surto de velocidade absurda ela está na frente deles se apresentando como dono do templo, era um homem que aparentava ser bem velho, tinha apenas uma barba grisalha bem longa e olhos castanhos escuros, além de suas marcas de idade e algumas cicatrizes no pescoço e têmpora.
—Olá, sou dono deste templo e ironicamente pai dessa garota que está com vocês... Não fizeram nada de errado com você, né filha?
—Não pai, eles são novos demais pra pensar em algo do gênero. - Disse ela em um tom calmo.
—Hm, esses jovens estão ficando cada vez mais animadinhos ultimamente, é sempre bom se precaver... Está com seu cinto de castidade?
—Cinto do que? Hey, velhote... Antes de tudo irei me apresentar... Este lindo garoto de olhos castanhos e cabelos curtos se chama Riki e esse cara que está aqui ao meu lado cujo os olhos não podem ser vistos por causa do cabelão preto enorme se chama Jean... - Disse Riki em um tom alegre
—Idiota, sério que você disse "cabelão"? Qual a sua idade? Nove anos? Isso foi tão idiota... Como ainda não ganhou seu troféu de idiota do século?
—Ah, esses jovens tão infantis que você me trouxe... Você quer que eu treine eles, filha?
—Sim, pai...
—Não estou afim de treiná-los... Leve-os de volta!
—M-MAS PAI?! - Disse ela demonstrando receio - Eu os fiz subir a montanha inteira... Sem motivo?
—Hey, velhote... Você só pode estar zoando, não é? - Disse Riki serrando os dentes e os punhos em uma expressão de ódio
—Sim, eu estava zoando... Filha, por favor mostre a eles onde podem se trocar! Ah, além disso, Riki... Este "velhote" bonitão aqui se chama Gerrie e sua filha que provavelmente os trouxe aqui, se chama... - Sua fala é interrompida por ele mesmo com um sorriso que acompanha um silêncio duradouro
—Velhote... Não me diga que esqueceu o nome da sua filha. Isso me lembra alguém. - Disse com uma expressão tentando conter o riso e lembrando de seu pai.
—Juro que estava na ponta da língua... - Disse Gerrie mantendo o sorriso intacto
—Er... Garotos, eu tinha esquecido de me apresentar na primeira vez, desculpem-me se possível... - Ela dá uma pausa pra tomar ar com um olhar cabisbaixo mas rapidamente levanta seu rosto com um sorriso alegre e um olhar calmo - M-me chamo Érica, prazer em conhecê-los.
 Riki olha seu rosto com os olhos brilhando.
—Você é lin- É interrompido por Jean que grita de forma rápida e clara
—Você é linda! - Jean aparentava estar um pouco corado, mas seus olhos não eram visíveis devido ao cabelo que os cobria
—Ah, obrigado rapazes. - Disse ela um pouco envergonhada
—Tirem o olho da minha filha, pirralhos! - Diz Gerrie sorrindo de uma forma psicótica
—Desculpe, Velhot- Gerrie... Mas acho que você deveria amarrar o Jean, ele é sexualmente perigoso... Quase um maníaco.
—Olha quem fala, idiota! Não me compare com você, eu sou a idealização da pureza, você que é o grande maníaco tarado aqui.
—Vocês dois são tarados que cobiçaram minha filha... - Diz Gerrie sorrindo com um toque de raiva perceptível em seu tom de voz
—Enfim, rapazes... Sigam-me! Levarei vocês para se trocarem.
  Ela seguia em passos lentos ao que parecia ser um galpão abandonado seus olhos pareciam cansados, algo que pôde ser percebido pelos que a seguiam.
—Moça, você tá com sono? - Disse Riki com os dedos entrelaçados apoiando a cabeça e os cotovelos erguidos
—Não é nada... É só que... - Ela boceja com as mãos cobrindo a boca - Acho que não dormi direito. Ou talvez seja ela de novo.
—Ela quem? - Perguntou Jean em um tom curioso
—Ninguém, apenas ignorem. - Disse ela em um tom calmo, coçando os olhos - Ah, chegamos...
 Eles estavam diante do galpão abandonado, morcegos saíam pelas janelas de madeira que já aparentavam estar prestes a ruir, ela empurrou a porta que fez um ruído estrondoso enquanto abria. O interior não era tão diferente da parte externa, era um tipo de vestiário rústico, destruído e mal iluminado.
—Como podem ver, as condições não são as melhores, as roupas estão naquele armário ali... - Disse ela enquanto apontava - Arrumem-se e voltem pra falar com meu pai. Eu acho que vou tirar um cochilo, desculpem.
—Sem problemas, você parece cansada... - Disse Jean enquanto observava ela sair pela porta
 Riki se aproxima de Jean e começa a sussurrar em seu ouvido.
—Não está achando ela muito suspeita?
—Por que, idiota?
—Apenas sinto que ela esconde algo...
—Talvez sejam peitões enormes que ela esconde com a roupa... - Diz Jean coçando o queixo com uma expressão pervertida
 Riki tenta segurar a risada, mas ambos começam a rir.
—Tem razão, acho que só estou pensando demais mesmo... Haha, realmente ela deve ter uns peitos grandes, a roupa realmente deve cobrir. - Diz Riki com uma expressão séria
—Acho melhor a gente se arrumar logo, o pai dela vai começar a suspeitar de nós...
—Certo...
 Riki abre o armário rapidamente e sua expressão fica uma mistura de repulsa com desentendimento ao ver a roupa que estava lá
—Isso aqui é uma saia?
—Idiota, isso aí é o armário feminino...
Jean abre outro armário
—Tudo bem, tudo bem, eu vou vestir, eu vou vestir, se você rir eu te arrebento. - Disse Riki enquanto pegava as roupas - Eu vou querer explicações daquele velho tarado...
 Ao sair do galpão, o céu estava lindamente estrelado, e sob a luz do luar, eles viam um brilho intenso direcionado aos seus olhos, era a careca de Gerrie refletindo a luz da lua. Ele estava sentado em um banco de pedra longo onde Érica dormia ao seu lado, Gerrie segurava um copo de chá que estava exalando vapor e entre um gole e outro acariciava os cabelos negros de Érica que dormia tranquilamente.
—Velhote, você fez ela trabalhar demais?
—Já que vocês são os únicos que vem aqui em três anos... Contarei quando sentir que estão prontos... Ah, tem algum motivo específico pra você estar de saia de colegial, Jean? Era pra vocês usar a Hakama*, mas se acham isso aí mais confortável, nada contra...
—Idiota, não achamos essa droga de "Hakama" que você disse, tanto faz... Eu nem queria treinar mesmo, qualquer coisa serve agora...
—Jean, você se adaptou tão fácil pra usar essa saia, estou começando a criar dúvidas sobre certas coisas...
—Calado, idiota! Você também está usan... Desde quando você está de cueca?
—Diferente de certas pessoas, eu não gosto de usar saia...
 Jean rapidamente tira a saia e fica de cueca também, Gerrie se levanta com uma expressão séria.
—Vocês estão zoando, não estão? Tudo bem que eu só não vou tirar também pois meu corpo já foi atingido pela idade e não está em seus melhores momentos...
—Aí, Jean. O velhote tá com vergonha. - Diz Riki em um tom irônico enquanto tirava a camisa rasgada que cobria seu corpo.
 Rapidamente Gerrie tira seu Yukata e seu corpo absurdamente musculoso que não condiz com sua idade é revelado, seu abdômen é completamente definido e seus bíceps tem proporções monstruosas.
—Por essa eu não esperava... - Diz Riki com uma expressão de desgosto - Jean, você vai primeiro...
—Podem vir os dois juntos se quiserem, eu não me importo não...
—Pode ir baixando a bola, velho idiota, sua idade te condena. Não interfira, Riki, essa batalha é minha. Eu não queria vir, mas parece que eu tenho que fazer tudo por aqui.
—Hm, vou ficar apenas observando então. Agora acho que já sei porque ninguém vem aqui a mais de três anos. Velhote, caso ele vença, você nos contará o negócio?
—Que negócio? - Diz Gerrie estalando os dedos e o pescoço e entrando em posição de luta
—Sobre sua filha, idiota! - Jean tira a camisa revelando uma cicatriz média que atravessa suas costas em forma de corte diagonal
—Quando foi que isso...? - Pensa Riki que encarava a cicatriz com uma expressão de desentendimento enquanto ia sentar-se ao lado de Érica para assistir a luta que estava prestes a começar
 Riki encarava com uma expressão curiosa Érica que estava dormindo ao seu lado
—Não fique pensando que vou te superestimar, velho idiota! - Jean entra diretamente em posição de luta
 Riki vira o rosto e percebe que ele não invocou a Kusari-gama
—É melhor não subestimar esse velhote, Jean...
—Calado idiota! Eu sei o que estou fazendo aqui...
—Quem avisa amigo é, garoto... Mas fique tranquilo, vou usar só dois por cento do meu poder - Diz Gerrie que começa a emanar uma energia laranja de seus punhos
—Ah, é mesmo, idiota? Não irei usar nem sequer um por cento do meu poder e você já vai estar beijando o chão, seu idiota! - Retruca Jean que começa a socar o ar rapidamente dando pulinhos de um lado para o outro em uma velocidade bem alta
—Vocês poderiam parar de conversar e começar logo a lutar, seus babacas? Você já estão me irritando. Vão acabar acordando a Érica.

Capítulo 10 - Calmaria

Jean respira fundo, apenas sua boca podia ser vista e aparentava estar inexpressivo, ele junta as pontas de todos os dedos em frente ao tórax e muda para uma posição de luta vagarosamente, perna direita para trás, esquerda pra frente, levanta os braços como se estivesse tentando alcançar algo, antes de dobrar os cotovelos e armar a guarda.
 Gerrie apenas observava sem expressar quase nada, exceto um leve sorriso calmo seguido de uma expressão séria e intimidadora. Riki encarava Érica fixamente e Gerrie acabou percebendo.
—Seu pivete tarado, não tente abusar da minha filha!
—Fica quieto, velhote! Você está lutando de cueca e eu que sou o tarado?!
—Não se distraia velho idiota! - Jean diz enquanto defere um soco no rosto de Gerrie que absorve todo impacto mantendo a expressão séria com apenas um pouco do sentimento de dor visível.
—Isso é tudo que você tem? Precisará de no mínimo mil anos pra sequer chegar perto... - Diz Gerrie enquanto devolve com um soco no estômago que faz Jean deslizar pra trás como se não houvesse atrito - Pra poupar tempo, explicarei enquanto eu te bato... Este soco que te dei agora foi pura força física, eu podia ter aumentado sua força em no mínimo vinte vezes caso eu adicionasse meu poder mágico.
Jean cospe sangue no chão e limpa a boca com o braço.
—Se esse era seu poder, sinto que não é grande coisa... Já já quebro sua cara...
Riki começa a observar a luta atentamente, Jean dá golpes rápidos e contínuos enquanto Gerrie absorve todo o dano.
—Me mostre logo seu real poder, velho idiota! - Diz Jean alvejando o rosto de Gerrie com um chute alto e Gerrie segura seu pé e o ergue, Jean fica pendurado de cabeça pra baixo e por algum tipo de milagre absurdo seu rosto não pode ser visto por ninguém e logo ele foi arremessado para longe por Gerrie.
—Está bem, está bem... - Gerrie faz uma careta e logo dá um sorriso de canto de boca enquanto em um movimento rápido, ele se agacha e dá um soco no chão, uma onda de energia surge a partir de onde o soco atingiu e começa a se expandir em formato circular, atingindo a todos e cria uma leve rachadura no chão, Érica acorda e olha para a situação como se fosse normal, Riki fica impressionado enquanto observa Gerrie atentamente, como se estivesse analisando cada movimento em mínimos detalhes.
Jean se levanta rapidamente e fica encarando.
—E aí, pivete... O que achou?
Jean fica calado respirando normalmente e ajoelha-se.
—Velho idiota, nos ensine, por favor! - Grita Jean abaixando a cabeça com as mãos apoiadas no chão, aparentava estar feliz com um sorriso enorme que apenas Gerrie podia ver.
—Está decidido, irei treiná-lo... Talvez consiga usar seu poder espiritual... Ah, agora é sua vez, Riki...
 Riki olha para o Jean com uma cara de desgosto e depois olha para Gerrie com uma expressão séria.
—O objetivo disso não era aprender a usar armas, velhote?
—O que eu acabei de mostrar também pode ser usado em objetos...
—Qualquer objeto?
—Quase qualquer objeto.
—Quais que não pode usar?
—Pare de fazer perguntas, pivete, está com medo de lutar?
  Riki se levanta do banco quase pulando e começa a rir.
—Hahaha, medo? Você é engraçado, velhote! - Disse Riki com um sorriso largo no rosto - Por enquanto não me preocuparei com nenhum dano que tente me causar, pode vir com tudo, velhote!
—Tem certeza, garoto? Tentarei não te matar então...
—Fique tranquilo velhote, não precisa ficar velh- Digo... Ah, você entendeu... - Diz Riki entrando em posição de luta e copiando os movimentos de Gerrie detalhadamente.
—Escuta garoto... Não é impossível que dê certo, mas as chances de acontecer são bem baixas...
—Se eu ao menos me preocupasse com possibilidades baixas, talvez eu me importasse. - Diz enquanto dá o soco no chão e emana uma leve fumaça negra...
—Aura negra? Acho o laranja bem mais bonito... - Diz Gerrie enquanto o chuta no estômago em uma velocidade absurda com uma expressão séria deixando um rastro laranja no ar
 O impacto atinge Riki que sente na pele o nível daquele poder, cai no chão sem ar por alguns segundos com os olhos arregalados tentando respirar, Jean o observa sentado no chão em frente ao banco onde Érica estava deitada. Riki se levanta tomando o fôlego de volta e verificando se há algum ferimento, enquanto passa a mão sobre a barriga, percebe que não houve nenhum.
—Pare de se achar, não é só porque você está com o quadruplo da minha idade que eu vou pegar leve. - Diz ele enquanto emana a fumaça pela ponta do indicador que logo se apaga miseravelmente.
—Bem... Era só isso? - Diz Gerrie segurando o riso
 Riki esconde a irritação por tal cena ridícula e retoma a posição inicial de luta
—Só me responda garoto... Por que quer ficar forte? - Pergunta Gerrie enquanto o olha nos olhos fixamente
—Pra salvar minha amiga. - Tosse - Tenho que salvá-la a qualquer custo... - Diz com determinação no olhar
—Mas garoto... P*** que o pariu, que motivo lindo... Tenho que treiná-lo. - Diz em um tom emocionado - Mas antes, terminemos o que começamos, se não vai parecer fácil demais e você vai acabar achando que o motivo disto é eu não receber muitos discípulos.
—Quem dera ele fosse esperto o suficiente pra tirar uma conclusão como essa. - Grita Jean ao fundo - Acho que ele vive apenas por instinto, será que tem alguma ideia do que está fazendo? - Pensou alto
—Acho que ele deve ter seus motivos pra agir como age, já tentou falar com ele sobre isso? - Responde Érica
—Você tava acordada então. Não falo muito com ele, apenas o acompanho, diria que somos como... Uma gangue, talvez? - Diz em um tom pensativo
—Haha, vocês são delinquentes então? - Ri em um tom cansado e boceja
—Algo como isso, talvez imigrantes ilegais? - Diz em um tom de piada - Ah, já está com sono de novo?
—Ela me cansa demais...
—Se não for incômodo, há a possibilidade de que você me diga quem seria ela?
—Olha, Jean. - Ela para pra respirar - Sei que você parece se preocupar comigo e tudo, mas realmente não é nada com o que deva se importar, além disso, nem você e nem seu amigo ganharam do meu pai na luta, né?
—É meio irritante, mas você tem razão. Só estava meio curioso. - Comenta ele meio cabisbaixo
—Ah, parece que suas chances de descobrir aumentaram. - Disse ela enquanto apontava pra Riki e bocejava
 A mão direita de Riki estava pingando sangue e fumaça vermelha, ele tinha exposto a lâmina e ficou com os olhos arregalados pouco depois enquanto sugava ar.
 Um grito ressoa pela cidade, originado da montanha, a imagem de orelhas humanas tremiam e uma boca feminina no porto dizia.
—Acho que tem alguém abusando de uma garotinha no topo da montanha do tigre. Por que não vai dar uma olhada, Belchior?
—Vai você, tenho que terminar de amarrar estas caixas para a viagem. Além disso, é longe pra caramba. Você só sabe pedir, Laura. Não sou nenhum tipo de escravo de vaginas não. - Diz uma voz grossa
 Belchior tinha uma aparência jovem, era um pouco calvo e tinha um cavanhaque, tantos olhos como cabelos castanhos, usava o mesmo uniforme de Laura, que era uma ruiva com o cabelo volumoso e olhos claros.
—Você é chato demais, eu só tinha comentado. - Diz com a voz risonha - Além de que quero passar bastante tempo com minha nova irmãzinha.
 Cecília estava amarrada sobre as caixas com a mesma roupa que estava quando chegou em Vemantis e com uma expressão de desânimo.
—Maninha, não fica triste, eu não quero você como minha irmãzinha pra sempre não, só estou te usando de isca pra pegar seus amigos de Cylan. Nosso chefe não gosta de quem vem de lá.
—Então por que não foram ordenados a me matar ainda? - Diz ela com ódio no olhar
—Responda a ela, Belchior!
—Já disse que não sou nenhum escravo de vaginas, Laura. Responda você mesma!
—Ah, como você é chato. Escuta, maninha! Algumas fontes confiáveis alegaram que você não é nativa de lá e que tem conexão com a família real, você será uma boa peça no tabuleiro do chefe.
—É, pelo visto eu não tenho direito de escolha mesmo... - Diz Cecília levantando as algemas e bufando enquanto olha pra baixo.
 Bem ao longe, alguém observava a situação sobre uma casa de três andares, sua capa vermelha desbotada acompanhava a direção do vento que soprava para o lado, seu olhos eram verdes, seu cabelo era preto e espetado, suas orelhas eram pontiagudas como as de um elfo, não era tão alto, aparentava ter em torno de 19 anos de idade, sua expressão era um pouco desesperada, como se estivesse muito animado com algo, as bolsas de seus olhos com olheiras eram visíveis, aparentava não dormir muito, sua barba cobria grande parte de seu rosto, ao perceber que Belchior o tinha observado com o canto do olhar, desapareceu em grande velocidade.
—Parece que fomos descobertos, Laura. - Diz Belchior com uma expressão de raiva
—Relaxa, não estamos fazendo nada de errado, afinal, nós SOMOS a lei. - Enfatizou ela em um tom feliz, se aproximando de Belchior e abraçando-o por trás.
—Acho que você é relaxada demais. - Diz ele dando um empurrão de leve para afastá-la.
—Você podia ser mais romântico, né? Nem parece que me ama. - Diz ela desanimada.
—Poderiam parar com toda essa melosidade? Estão me dando ânsia de vômito. - Diz Cecília.
—Acha que tem direito de escolha, irmãzinha? Você devia respeitar sua irmã mais velha.
—Pare com essa atuação, Laura, nosso senhor nos aguarda. - Diz enquanto levantava Cecília no ombro e embarcava, puxando Laura pela mão.
—Assim nós parecemos uma família, Belchior. - Diz Laura rindo
Belchior apenas dá partida no barco em direção a uma ilha próxima. Pouco tempo depois da partida, um portal se abre no porto e Lobo sai de dentro vestindo um manto vermelho sem mangas, ele acena pro portal e sorri agradecendo.
 Hiromi acena e sorri olhando de dentro do portal.
—Volte quando der, tudo bem?
—Se encontrar a mamãe, diga que mandei lembranças, volto quando puder.
 O portal se fecha e Lobo sai andando e seu manto desaparece, deixando apenas uma camisa preta com um crânio humano estampado, uma bermuda branca simples e chinelos pretos, até que sente um cheiro e começa a farejar buscando a fonte.
 Sua busca o leva até a escadaria da montanha em que eles estavam.
—Mas nem f****** que eu vou subir isso agora. Tomara que eles treinem direito. - Resmugava em voz baixa enquanto rumava ao porto com as mãos nos bolsas, aparentava estar frio, mas ele parecia não se importar.
 Enquanto isso no topo da montanha, Riki descansava em uma cama com o braço enfaixado. Jean tomava café com Gerrie e Érica que tinha acabado de explicar o motivo do seu sono absurdo e estava indo dormir.
—Então, achei que fosse só uma lenda urbana. - Diz Jean um pouco impressionado. - "Ceifa-corpos" são surreais demais.
—Me senti na obrigação de contar a você, a situação do seu amigo não é muito grave, mas é bem estranho, tentarei chamar um médico amanhã de manhã.
—Tudo bem. Pode me contar mais sobre essa parada da Érica?
—Assim que ela e seu amigo acordarem eu conto, seria bom também que a gente vestisse algo, imagina se alguém vem? Teriam uma ideia errada. - Diz Gerrie coçando a cabeça e rindo. - Ah, também não quero falar mais sobre isso agora pois o principal desse treinamento é concentração e uma boa noite de sono. Portanto, vá dormir logo, seu pirralho tarado!
—Não ache que pode mandar em mim, velho idiota! Onde tem uma cama por aqui?
—Ninguém aqui falou em cama. - Diz Gerrie apontando para uma barraquinha armada do lado de fora do templo. - Você dorme lá, seu amigo dorme aqui por causa da condição dele.
—Você tá de sacanagem, né? - Diz Jean com uma expressão impressionada.
 Gerrie dá uma risada de leve e Jean o acompanha rindo também.
—Não, eu estou falando sério, você vai dormir lá fora. - Diz Gerrie em um tom e expressão sérios.
 Jean apenas olha pra ele com desgosto e vai pra barraca.

Capítulo 11 - Em breve...

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